O transporte de mercadorias é frequentemente visto como uma inevitabilidade logística: se há carga, há viagem. No entanto, para otimizar as viagens é necesário tirar o melhor partido do espaço para não efetuar o transporte em vazio. Pedro Queimado, founder & Senior Efficiency consultant daa KronoLog Solutions, e representante Oficial para Portugal da SpaceInvader, propõe uma reflexão sobre a necessidade de olhar para além do ajuste de rotas e enfrentar o desperdício invisível da ocupação volumétrica.
Quem anda no terreno sabe que o transporte nunca foi apenas “levar de A para B”. Sempre foi uma peça crítica da operação, mas durante muito tempo foi tratado quase como inevitável: há mercadoria, há camiões, logo, há viagens. O problema é que este raciocínio trouxe um nível de desperdício que hoje já não dá para ignorar.
A pressão que se sente atualmente não é nova, mas está mais exposta. Falta capacidade, os custos estão onde estão e a pressão para redução de emissões deixou de ser um tema de um qualquer relatório anual. Passou a ser um tema de gestão diária. E isto obriga a ir além do habitual ajuste de rotas ou negociação de tarifas. Obriga a mexer na forma como se usa, de facto, o transporte.
Há uma coisa que, na maioria das operações, continua a ser aceite sem grande crítica: o semirreboque vai “cheio” quando já não cabe mais nada. Mas se olharmos com atenção, na maior parte dos casos, o limite não é o peso. É o espaço. E isso significa que andamos, todos os dias, a pagar para transportar ar.
Quando o foco maximizar a ocupação volumétrica, passamos a conseguir reduzir viagens completas. E quando uma operação percebe que consegue transportar o mesmo com menos camiões, o transporte deixa de ser apenas um tema operacional e passa a ter um peso claro na decisão estratégica. Claro que isto não vive isolado. Quem já passou tempo suficiente num armazém sabe bem onde é que as coisas podem correr mal. A praia é o pulmão da operação e os cais de carga e descarga são a respiração. É ali que tudo entra e sai. E se esta zona bloqueia, o armazém para e, aí, passamos a ter um problema que diz respeito à operação inteira.
Por isso, qualquer alteração na operação de transporte tem de ser pensada com os pés bem assentes no terreno. Não pode acrescentar fricção à carga e descarga, nem aumentar tempos nos cais. Se isso acontecer, a própria operação rejeita a solução, e com razão. Quando a integração é bem feita, o efeito é outro: menos camiões ao longo do dia, menos pressão sobre as equipas e um fluxo mais equilibrado.
Se o processo de transformação da gestão da operação de transporte for bem implementado conseguimos logo dois ganhos adicionais à partida. A exposição aos quilómetros em vazio reduz e, por consequência, as emissões para a atmosfera também. Menos viagens significam menos consumo. Menos consumo traduz-se em menos emissões.
Acima de tudo, há uma ideia que ajuda a alinhar equipas rapidamente: o quilómetro mais eficiente é aquele que não chega a ser feito. Sempre que eliminamos uma viagem sem comprometer o serviço, estamos a melhorar a operação de forma estrutural.
No fim do dia, a diferença não está em fazer um planeamento ligeiramente melhor dentro do mesmo modelo. Está em questionar o modelo. Está em olhar para o reboque e perceber se estamos mesmo a usar aquilo que já temos. Está em garantir que transporte, armazenamento e planeamento funcionam como um sistema único, com impacto direto uns nos outros.
Quando isso acontece, os ganhos deixam de ser marginais e passam a ser estruturais. E isso, para quem gere operações todos os dias, é o que realmente conta.
Pedro Ferreira Queimado, Founder & Senior Efficiency Consultant na KronoLog Solutions | Representante Oficial para Portugal da SpaceInvader



