Num momento em que as cadeias de abastecimento se tornam cada vez mais sofisticadas, integrando tecnologia, dados e operações altamente interdependentes, começa a emergir uma tensão menos visível, mas decisiva: estaremos a exigir demasiado dos líderes… e muito pouco das equipas? Conheça o ponto de vista de Marco Oliveira, supply chain manager.

Durante anos falámos obsessivamente sobre liderança. Criámos cursos, livros e conferências para ensinar líderes a motivar equipas, gerir conflitos, ter conversas difíceis, lidar com egos e responder a expectativas. Em muitas organizações, o líder passou a ser visto quase como o principal gestor das tensões do dia-a-dia.

Mas vale a pena parar um momento e fazer uma pergunta simples:

– O que estamos realmente a pedir aos nossos líderes?

As empresas, e particularmente as supply chains, estão a tornar-se sistemas cada vez mais complexos. Integram dados em tempo real, automação, inteligência artificial, planeamento avançado e operações distribuídas. Num contexto assim, o papel do líder não pode limitar-se a gerir fricções humanas permanentes.

O líder precisa de voltar a concentrar-se no essencial: resolver problemas, procurar inovação, melhorar o sistema e formar as equipas. É daí que nascem os verdadeiros avanços nas organizações. Mas, para que isso aconteça, algo também precisa de mudar dentro das equipas.

Se o líder estiver constantemente absorvido na gestão de pequenos conflitos, egos ou reclamações permanentes, sobra pouco tempo para aquilo que realmente faz evoluir uma empresa: pensar processos, integrar tecnologia e desenhar sistemas mais eficientes.

Talvez a liderança do futuro tenha também uma dimensão mais técnica. Não no sentido de saber fazer tudo, mas no sentido de compreender como o sistema funciona e onde pode ser melhorado. E isso levanta uma questão importante. Se queremos líderes focados em melhorar sistemas e empresas para o próximo salto tecnológico, então as equipas também precisam de evoluir.

Organizações fortes não dependem apenas de bons líderes. Dependem de pessoas que assumem responsabilidade pelo funcionamento do sistema. Pessoas que não desligam o pensamento quando recebem uma instrução. Que identificam problemas, questionam processos e ajudam a encontrar soluções.

A investigação científica começa também a olhar para este lado da equação. Estudos sobre followership mostram que o pensamento crítico dos liderados influencia diretamente a qualidade das decisões e o desempenho das organizações (Oc, 2023). Talvez seja precisamente esta maturidade coletiva que permitirá às empresas dar o próximo salto tecnológico.

No final, o verdadeiro teste de uma organização é simples: as pessoas limitam-se a executar ou ajudam a melhorar o sistema?

Marco Oliveira, Supply chain manager

 

Referência científica – Oc, B. (2023). The study of followers in leadership research: A systematic review.