Bernardo Guinea analisa como o agravamento do conflito no Médio Oriente está a revelar, com rara clareza, a fragilidade da arquitetura logística global. Entre rotas marítimas bloqueadas, espaço aéreo condicionado e custos energéticos em escalada, as cadeias de abastecimento enfrentam um novo teste de resiliência, num contexto em que a eficiência já não chega e a geopolítica volta a ditar as regras do comércio.

O mundo desperta diariamente sob a sombra de uma disrupção logística sem precedentes. O que antes eram “tensões regionais” transformou-se, nas últimas duas semanas, num bloqueio sistémico que ameaça paralisar a economia global. Com a escalada militar no Irão e o fecho efetivo do Estreito de Ormuz, não estamos apenas perante uma crise energética; estamos perante um teste de sobrevivência para todas as modalidades de transporte.

Historicamente, o transporte marítimo foi a espinha dorsal do comércio global. Contudo, os dados de hoje são alarmantes: o tráfego no Estreito de Ormuz caiu de 140 navios diários para apenas uma mão-cheia. A rota do Mar Vermelho, que ensaiava uma recuperação no início do ano, voltou a ser uma “zona proibida”. O desvio pelo Cabo da Boa Esperança já não é uma alternativa estratégica, mas uma necessidade dispendiosa que acrescenta 15 a 20 dias de viagem e inflaciona os custos de frete para níveis nunca vistos desde a pandemia da Covid-19.

Para setores de elevado valor acrescentado, como o tecnológico e o farmacêutico, o transporte aéreo deveria ser a solução de recurso. No entanto, o fecho de vastos corredores do espaço aéreo no Golfo forçou o redirecionamento de rotas internacionais. O resultado é um aumento drástico no consumo de combustível e uma redução da capacidade de carga disponível, fazendo subir as tarifas aéreas para patamares proibitivos para a maioria das PME portuguesas e europeias.

O impacto no corredor Ásia-Europa é particularmente severo. Com o fecho sistemático do espaço aéreo no Golfo, a capacidade de carga aérea caiu 26% num único fim de semana. O modelo de “hub”, que utilizava Dubai, Doha e Abu Dhabi como pontos nevrálgicos, foi subitamente exposto. Embora as companhias tenham reagido aumentando a capacidade direta em 14%, esta é apenas uma solução de recurso que não compensa a perda. As operações de cargueiros via Médio Oriente colapsaram 75%, forçando paragens técnicas na Ásia Central que são, na melhor das hipóteses, ineficientes e prejudiciais.

O resultado é uma contração global de 18% na capacidade de transporte, com a Índia a sofrer uma paralisia de 60% nas suas rotas habituais. A crise aérea não ocorre no vazio: é alimentada e, por sua vez, alimenta o caos noutras modalidades de transporte. No transporte marítimo, o bloqueio de rotas empurra a carga de alto valor para o ar. No entanto, como se vê, o “céu está a fechar-se”, criando um estrangulamento no qual não existe uma saída rápida para mercadorias críticas, como os produtos farmacêuticos.

Não se engane quem pensa que o impacto se limita aos portos e aeroportos. O transporte rodoviário está a sentir o choque indireto mais violento. O preço do petróleo atingiu hoje valores históricos, superando os 115 dólares por barril. Nas estradas europeias, o aumento do custo do gasóleo traduz-se imediatamente numa subida do preço dos bens essenciais de consumo.

Com o bloqueio das exportações de ureia e amoníaco do Golfo, os custos de produção agrícola podem subir até 40%, de acordo com estudos recentes, pressionando toda a cadeia logística rodoviária responsável pela distribuição destes bens essenciais.

Este conflito prova que a nossa dependência de “pontos de estrangulamento” geopolíticos (chokepoints) é o calcanhar de Aquiles da globalização. Já não basta ter cadeias de abastecimento eficientes; é imperativo construir cadeias resilientes.

Se o conflito se prolongar por mais de um mês, como sugerem analistas da Agência Internacional de Energia (IEA), poderemos assistir a uma mudança permanente das rotas comerciais.

Os números da última semana de fevereiro e do início de março revelam uma verdade difícil de ignorar: a nossa arquitetura logística é muito mais frágil do que a nossa ambição comercial gostaria de admitir.

A dependência estrutural é o nosso maior risco. No último trimestre de 2025, metade da capacidade entre a China/Hong Kong e a Europa dependia de escalas no Golfo. Hoje, essa dependência transformou-se num passivo. Transitários e armadores já reportam atrasos de sete a dez dias, mesmo que o espaço aéreo reabra amanhã.

O que os acontecimentos deste conflito nos ensinam é que a logística “Just-in-Time” morreu perante a geopolítica “Just-in-Case”. A subida inevitável das taxas de frete e o aumento dos tempos de trânsito não são flutuações de mercado: são o custo de fazer negócios num mundo em guerra e fragmentado.

A resiliência terá agora de ser desenhada fora dos mapas tradicionais do Golfo, procurando novas soluções antes que as consequências se tornem ainda mais profundas para o comércio global.

Bernardo GuineaAir Freight Manager | Codognotto