A incerteza foi o fio condutor do debate no Cargo Freight Summit 2026. O tema já era premonitório – “Entre rotas e ruturas: a nova era do transporte de carga” – à luz de uma realidade geopolítica que tem adicionado a volatilidade aos fatores de decisão. Ganhou, todavia, nova atualidade e acuidade no contexto do conflito no Médio Oriente desencadeado a 28 de fevereiro. E foi precisamente este o barómetro das intervenções desta iniciativa da Supply Chain Magazine, a 4 e 5 de março, no Grande Hotel do Luso.
A tónica começou por ser dada por Tiago André Lopes, professor auxiliar e investigador da Universidade Lusíada do Porto, cuja intervenção se subordinou ao tema “Decidir num mundo anárquico: geopolítica, risco e transporte”, mas que, disse, foi forçado a adaptar face aos acontecimentos mais recentes. Acontecimentos esses que acrescentam complexidade a rotas que já estavam em rutura: afinal, a chamada rota da seda, entre a China e a Europa, está atrasada, o corredor Blue Banana está no limite da sua capacidade. Com o estreito de Ormuz inviabilizado, os transportadores procuram alternativas, mas essas alternativas têm um custo – só por si, encarecem o transporte, mas há que contar com a escalada do preço do brut, logo, do preço dos combustíveis.
Neste cenário, emergem questões ainda sem resposta: “Como se renegoceiam os preços?”, “Qual o papel real da China e que condições vai dar aos seus parceiros europeus?”, “Que efeitos vai ter esta situação em futuros processos eleitorais?” são algumas delas.
Exportação 360º: Setores nacionais enfrentam tempestade de custos
É neste contexto que se movem as empresas exportadoras, cujo caderno de encargos passa, cada vez mais, pela inovação e colaboração enquanto estratégias para a competitividade. Isso mesmo atestaram os participantes na mesa-redonda dedicada ao tópico “Exportação 360o“: Nelson Cristo, da Assimagra – Recursos Minerais de Portugal; Sónia Vieira, da ViniPortugal; Gonçalo Santos Andrade, da Portugal Fresh – Associação para a Promoção das Frutas, Legumes e Flores; e Ana Gonçalves, da APAT – Associação dos Transitários de Portugal; moderados pelo consultor da EY João Queirós.
Com mais de 1.600 milhões de toneladas exportadas em 2025, o setor da pedra lida diariamente com as dificuldades de contexto, nomeadamente as associadas ao custo do transporte: afinal, cerca de 48% da produção dirige-se a mercados extracomunitários, o que torna esta indústria muito dependente do transporte marítimo. “Há destinos em que o transporte é mais caro do que a carga”, comentou Nelson Cristo. Apontou ainda como condicionantes a complexidade para licenciamento de pedreiras, o envelhecimento da mão-de-obra e o facto de, nos últimos 20 anos, terem desaparecido entre 45 a 60% das empresas extratoras.
Pela Portugal Fresh, Gonçalo Santos Andrade deu conta de que, em 2025, as exportações alcançaram os 2,6 mil milhões de euros, sendo que, em 15 anos, o valor das exportações mais do que triplicou. Para este desempenho, muito têm contribuído os mercados do Médio Oriente, que remuneram bem, pelo que o atual contexto geopolítico se afirma como muito desafiante para o setor.
Ainda assim, novas oportunidades poderão surgir em consequência do acordo comercial com o Mercosul, ainda que a União Europeia a 27 constitua o principal bloco recetor das exportações do setor.
Também o setor do vinho enfrenta fragilidades de natureza logística a nível das exportações. Vendendo para o exterior cerca de 47% da produção nacional, num total de 953 milhões de euros em 2025, vê-se confrontado com o aumento de custos, como explicou Sónia Vieira.
Pelo lado dos transitários, Ana Gonçalves focou-se nas oportunidades de melhoria, num cenário de desadequação de infraestruturas aeroportuárias. Na sua perspetiva, há necessidade de hubs logísticos e de maior integração da ferrovia. Quanto ao setor que a APAT representa, afirma que mantém com os exportadores uma relação de valor, assente na flexibilidade e no planeamento.
A receita contra a crise: Planeamento e parcerias estratégicas
Os desafios logísticos na exportação voltaram ao palco no segundo dia do Cargo Freight Summit. Pela voz de Hugo Ferreira, da Grestel, empresa especializada em produtos cerâmicos que integra o grupo Costa Nova Indústria. Com uma produção de cerca de 1.200 mil peças por mês, exporta entre 80 a 90%, repartidos sobretudo entre a Europa e os Estados Unidos, o que faz da rota transatlântica a principal. No entanto, está igualmente presente na Ásia, enfrentando algumas dificuldades em chegar ao destino. Sendo uma exportação altamente sensível aos fatores externos, apontou o planeamento robusto, a diversificação de risco e a colaboração com os operadores logísticos como determinantes para superar a imprevisibilidade.
E foi precisamente na colaboração que se centrou Cláudia Penhas, da Labman, que partilhou a apresentação com André Rocha, da Olicargo. Para dar conta de uma parceria que se tem revelado essencial para superar os desafios associados à presença no mercado angolano. Um dos desafios prende-se com a especificidade do transporte, atendendo a que a empresa é fornecedora de soluções laboratoriais para o setor do petróleo e do gás. A gestão de risco é crítica nesta operação, o que – afirmaram – requer colaboração e criatividade.
A dispersão internacional faz igualmente parte do quotidiano da Artevasi, empresa portuguesa especializada na produção de vasos, que começou a exportar em 2009, três anos após a sua fundação. Com mais de 40 mil unidades fabricadas por dia, está presente em 60 países. Bruno Patrão partilhou na conferência que a eficiência é um dos focos da empresa, nomeadamente no que respeita à gestão de stock, de espaço e de cais. Entre os desafios, identificou os que decorrem dos limites de capacidade do porto de Leixões, mas também os riscos geopolíticos que conduzem ao cancelamento de encomendas e entregas, e os eventos climáticos, que aumentam o lead time e abrem a porta a penalizações contratuais.
Do “Just-in-Time” à Regionalização: A nova era logística
É nesta incerteza que vivem as empresas exportadoras e os operadores logísticos, a justificar, pois, o tema do Cargo Freight 2026. E dificilmente – como afirmou Fernando Cruz Gonçalves, professor da Escola Superior Náutica Infante Dom Henrique – poderia ter acontecido um enquadramento espácio-temporal “melhor” para um evento sobre a nova era do transporte de carga.
Foi essa reflexão que convocou, precisamente, na qualidade de moderador de um painel constituído por Luís Maldonado, da Repsol Polímeros; Nuno Fonseca, da Movi; e Nuno França, consultor de logística. Os riscos – começou por afirmar – sempre existiram, mas eram outros e esporádicos, mas, atualmente, a disrupção é permanente, com custos inesperados, obrigando a replanear processos. E convertendo o gestor logístico num gestor geopolítico.
Nuno França concorda que se vive uma mudança estrutural, com os eventos mais recentes a colocarem em causa toda a eficiência das cadeias de abastecimento. A globalização, e os riscos associados, veio fragilizar as cadeias, levando a que se pondere um movimento de regionalização como resposta.
Um movimento que – recordou Nuno Fonseca – se iniciou com a Covid-19, com a aproximação do fornecimento à Europa ou a países vizinhos, como os do norte de África. A questão – afirmou – é se a Europa tem vontade e se está preparada para voltar a uma base mais industrial.
Pela indústria, Luís Maldonado deu conta do impacto que as disrupções nas rotas está a ter sobre uma produção muito dependente da importação de matérias-primas do Médio Oriente. Um impacto que pode chegar ao extremo de ser mais compensador parar as operações de fabrico, em vez de suportar os custos da escalada de preços gerada pelas ruturas.
Perante esta realidade, os participantes na mesa redonda convergiram na opinião de que a resposta às ruturas tem feito emergir a logística como um setor útil, já não em segundo plano.
Na rota do transporte de carga, há outros desafios – os da sustentabilidade, mais concretamente, da descarbonização. E foi sobre eles que se pronunciou Raquel Passos Miranda, diretora da Unidade de Gestão e Engenharia Industrial do INEGI, deixando uma mensagem essencial: é que descarbonizar implica um pensamento sistémico. Na sua perspetiva, já não é uma escolha ambiental, é uma decisão estratégica.
E é uma decisão que implica um novo mindset, na medida em que constitui uma oportunidade para crescer, como argumentou Maria Lacalle Muls, head of Customer Decarbonization, da Carboninsets. Trouxe à conferência a importância dos certificados de descarbonização para um setor altamente responsável pelas emissões de CO2: afinal, cerca de 80% das emissões de âmbito 3 provém da supply chain.
Há decisões que são visíveis, mas há também as que não vão para os slides: são os bastidores do transporte e partilhar alguma dessa invisibilidade foi o repto lançado no painel final deste Cargo Freight a Celina Rodrigues, da Corticeira Amorim; Luís Tomás, do Grupo RNM; e Vítor Enes, da Luís Simões. Com a provocação a cargo de Filipe Barros, executive manager da Supply Chan Magazine, os oradores partilharam casos reais em que colocaram risco e oportunidade nos dois pratos da balança, com resultados nem sempre esperados, mas com a certeza de que não decidir poderia ter um custo superior.
É a performance sob pressão a fazer parte do quotidiano da logística e do transporte. Com o risco de o stress assumir o controlo e passar a decidir pelos profissionais, como bem explanou José Soares, autor, professor e especialista em performance da Universidade do Porto. Convidado a encerrar o primeiro dia dos trabalhos, deixou no Luso uma dose substantiva de “food for thought”.



