Paula Sofia Ribeiro, Procurement Manager, parte da decisão estratégica da Pandora de reduzir a dependência da prata para refletir sobre um tema estrutural nas cadeias de abastecimento: a exposição excessiva a commodities voláteis. Num contexto marcado por instabilidade geopolítica, disrupções logísticas e oscilações abruptas de preços, negociar melhor é suficiente ou, em certos casos, a verdadeira vantagem competitiva começa no redesenho do próprio produto?
A recente decisão da Pandora, de reduzir a sua dependência da prata através da utilização de revestimento de platina, constitui mais do que uma simples alteração técnica do produto. Trata-se de um movimento estratégico que evidencia uma preocupação crescente com a exposição a matérias-primas voláteis.
A volatilidade das commodities tem sido uma constante nos últimos anos. Oscilações abruptas de preço, tensões geopolíticas, disrupções logísticas e fenómenos climáticos extremos têm colocado pressão significativa sobre as cadeias de abastecimento globais. Para organizações altamente dependentes de uma única matéria-prima crítica, esta instabilidade traduz-se numa erosão progressiva de margens e numa redução da previsibilidade financeira.
Tradicionalmente, a resposta das empresas perante este cenário tem passado por renegociação contratual, diversificação de fornecedores ou mecanismos de cobertura de preço. Estas medidas são relevantes e, muitas vezes, necessárias. Contudo, importa questionar se são suficientes quando o risco é estrutural.
A dependência excessiva de uma commodity transfere parte do controlo estratégico da organização para o mercado. Quando o preço sobe abruptamente ou a oferta é condicionada, a empresa limita-se a reagir. A capacidade de antecipação reduz-se e a margem de manobra estratégica estreita-se.
Este fenómeno não é exclusivo da indústria da joalharia. O mercado do cacau tem registado aumentos históricos que pressionam a indústria do chocolate; o café enfrenta quebras de produção associadas a alterações climáticas; o lítio tornou-se um ativo crítico na transição energética; os semicondutores expuseram a vulnerabilidade de múltiplos setores industriais. Em todos estes casos, a dependência de matérias-primas críticas revelou fragilidades estruturais.
É neste contexto que a função de Procurement assume um papel determinante. A maturidade estratégica não se mede apenas pela capacidade de negociar melhores condições comerciais, mas também pela capacidade de questionar pressupostos de base: até que ponto faz sentido manter a dependência de determinado material? Que alternativas técnicas existem? Qual o impacto no posicionamento e na proposta de valor?
Redesenhar o produto ou alterar especificações são decisões complexas, que exigem alinhamento entre Procurement, engenharia, marketing e gestão financeira. No entanto, podem constituir a única resposta verdadeiramente estrutural a um risco persistente.
Existe ainda uma dimensão frequentemente subavaliada: a perceção do cliente. As matérias-primas não são apenas inputs produtivos; são também elementos integrantes da proposta de valor. Alterar um material pode implicar ajustamentos na narrativa da marca e na experiência percebida. Se a mudança não for devidamente enquadrada, o risco deixa de ser exclusivamente financeiro e passa a ser reputacional.
Num ambiente económico caracterizado por volatilidade crescente e cadeias de abastecimento mais expostas a disrupções, torna-se imperativo que as organizações adotem uma abordagem mais preventiva e integrada à gestão de risco de commodities.
Ignorar as dependências estruturais pode não gerar impacto imediato, mas tende a produzir efeitos cumulativos: erosão de margens, limitação de opções estratégicas e redução da capacidade de resposta a choques externos.
Mais do que negociar melhor, talvez a questão central seja outra: estaremos a gerir o risco… ou apenas a adiar as suas consequências?
Paula Sofia Ribeiro | Procurement Manager




Excelente artigo.
Muitas vezes achamos que uma negociação é apenas um duelo em que o objectivo é “espremer” a contraparte. Por isso concordo com a ideia que nem sempre a melhor negociação é lutar por condições melhores, às vezes é redesenhar o produto para reduzir a exposição a commodities voláteis.