Os efeitos da depressão Kristin estão a provocar disrupções relevantes em vários setores industriais portugueses, com impactos que já se refletem nas cadeias de abastecimento europeias. A destruição de muitas unidades industriais e as paragens produtivas registadas nos últimos dias não se concentram num único setor, atingem diferentes atividades industriais críticas.

Na indústria de componentes automóveis, há fábricas que ainda não conseguiram retomar atividade. Em declarações à Lusa, o presidente da AFIA, José Couto, confirmou que algumas unidades permanecem inoperacionais devido a danos severos em edifícios e equipamentos, situação que levou clientes europeus a rever planos de produção e, em alguns casos, a parar linhas.

Segundo a associação, cerca de 20 empresas do setor, localizadas entre Aveiro e Alcobaça, foram diretamente afetadas — um número significativo num universo aproximado de 360 empresas. Os principais impactos deverão sentir-se em Espanha e Alemanha, mercados fortemente dependentes de fornecimentos a partir de Portugal, mas também em França, onde já se registam constrangimentos produtivos associados a estas paragens.

Apesar de algumas empresas terem conseguido retomar atividade após dois a quatro dias de interrupção, sobretudo nos casos de danos mais leves, a avaliação global continua em curso, dificultada pelas falhas prolongadas de energia e comunicações em várias zonas industriais.

Moldes: danos severos e resposta de cooperação

Também a indústria de moldes enfrenta um cenário de elevada complexidade, sobretudo nas regiões de Leiria e Marinha Grande. A CEFAMOL confirmou prejuízos significativos em instalações, equipamentos e infraestruturas críticas, agravados por interrupções no fornecimento de energia elétrica e nas telecomunicações, que dificultaram o levantamento rápido dos impactos.

A associação tem mantido presença ativa no terreno e articulado com o Governo, tendo participado em reuniões com responsáveis governamentais onde foram identificadas as necessidades mais urgentes das empresas. Na sequência desse processo, foi aprovado um pacote de medidas de apoio no valor de 2,5 mil milhões de euros, incluindo linhas de crédito para tesouraria e reconstrução, moratórias bancárias e isenções temporárias de contribuições para a Segurança Social.

Como resposta operacional imediata, a CEFAMOL lançou ainda uma Bolsa de Disponibilidade, uma rede de cooperação entre empresas dos setores de moldes e plásticos, destinada a mitigar ruturas produtivas através da partilha de capacidade instalada. Foram também disponibilizados espaços de trabalho temporários com energia e acesso à internet, permitindo que algumas empresas retomem contacto com clientes e parceiros enquanto decorrem os trabalhos de recuperação.

Vidro: paragens com impacto em cadeias de embalagem e bens de consumo

Outro setor fortemente afetado é a indústria vidreira, com prejuízos de vários milhões de euros associados a danos em coberturas, armazéns, sistemas técnicos e linhas de produção. Unidades localizadas na Marinha Grande e na Figueira da Foz estiveram paralisadas durante vários dias, comprometendo volumes de produção e exportações.

O impacto vai além do próprio setor, atingindo cadeias de abastecimento dependentes do vidro, como as bebidas, a indústria alimentar e o embalamento, onde a interrupção no fornecimento pode gerar efeitos em cascata. Apesar do arranque gradual da produção em algumas unidades, a normalização total continua dependente da recuperação das infraestruturas e da avaliação dos danos em equipamentos sensíveis.

Transporte, portos e ferrovia sob pressão agravam disrupções

Para além da produção, a depressão Kristin está também a afetar infraestruturas logísticas críticas, ampliando o risco de rutura nas cadeias de abastecimento. Operações ferroviárias e portuárias registaram constrangimentos significativos, com suspensões temporárias de entregas, congestionamento nos terminais e alterações frequentes nas escalas marítimas.

Segundo informação transmitida por operadores logísticos e armadores, o mau tempo provocou omissões de escala, mudanças sucessivas de navio e múltiplos rollovers, comprometendo a fiabilidade dos tempos de trânsito. A instabilidade nas ligações ferroviárias ao hinterland obrigou ainda à avaliação de alternativas rodoviárias, com impacto direto nos custos de transporte e no planeamento das expedições.

Este contexto logístico agrava os efeitos das paragens industriais, atrasando exportações e aumentando a pressão sobre empresas que operam com margens reduzidas e compromissos contratuais exigentes.

Leiria como nó crítico das cadeias de abastecimento

O impacto da depressão Kristin ganha maior dimensão quando analisado à escala territorial. O distrito de Leiria concentra uma das redes industriais mais diversificadas e modernizadas do país, com peso relevante em setores como vidro e cristalaria, cerâmica, moldes, plásticos, madeira e mobiliário, muitos deles fortemente orientados para exportação.

Segundo a NERLEI, apesar de representar cerca de 5% do território e da população nacional, a região supera largamente essa proporção em termos de dinamismo empresarial, capacidade de inovação e integração em cadeias de valor internacionais. Esta concentração transforma o território num verdadeiro nó crítico das cadeias de abastecimento industriais, onde um choque climático localizado pode gerar impactos sistémicos.

A depressão Kristin funciona como um alerta claro para a gestão de risco territorial nas cadeias de abastecimento. A concentração geográfica de fornecedores críticos, a dependência de infraestruturas comuns e a interligação entre setores distintos tornam regiões industriais como Leiria particularmente sensíveis a eventos extremos.

Para o procurement, supply chain e gestão industrial, a resposta passa por ir além da análise por fornecedor individual e integrar uma leitura territorial do risco: mapeamento de clusters críticos, avaliação de dependências regionais, mecanismos de redundância produtiva e acordos de cooperação interempresarial. Num contexto de maior frequência de choques climáticos, a resiliência deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a ser um fator estratégico de competitividade e continuidade do negócio.

FOTO: CEFAMOL