O comércio europeu de fruta e legumes entrou em 2026 a funcionar sob tensão permanente. Os produtos continuam a chegar ao mercado, os consumidores encontram variedade nas prateleiras e os preços mantêm-se relativamente estáveis. Mas essa aparente normalidade esconde um desequilíbrio crescente ao longo da cadeia, onde o risco se concentra cada vez mais cedo e a logística é chamada a compensar falhas estruturais que não criou.
É este o retrato traçado pelo European Statistics Handbook 2026, elaborado pela Agrarmarkt-Informations-Gesellschaft (AMI) e apresentado por Michael Koch, a propósito da Fruit Logistica, que arranca hoje em Berlim e onde Portugal está mais uma vez representado através da Portugal Fresh.
Na leitura de Koch, a história começa no clima, porque é aí que o sistema começa a perder previsibilidade. Geadas fora de época, secas prolongadas e episódios extremos tornaram-se recorrentes, penalizando sobretudo o Sudeste da Europa. Em culturas sensíveis como cerejas e ameixas, as quebras foram suficientes para criar falhas reais de oferta, obrigando o mercado a reagir com reajustes rápidos de preços e sourcing, muitas vezes em cima do acontecimento.
Essas falhas, sublinha o analista da AMI, não se propagam de forma linear ao longo da Europa. Enquanto algumas regiões enfrentaram escassez crítica, outras escaparam aos eventos mais severos. A produção de maçã é um exemplo claro: colheitas abundantes num contexto de excesso de oferta. O resultado foi um mercado fragmentado, com categorias a disputar espaço logístico, capacidade de armazenagem e janelas de transporte, enquanto outras procuravam produto alternativo em tempo real. Neste contexto, a logística deixou de ser apenas função de suporte e passou a atuar como verdadeiro instrumento de compensação.
Sempre que houve produto disponível e capacidade para o fazer fluir, o sistema respondeu como esperado. O aumento da oferta pressionou os preços em baixa e estimulou a procura, sobretudo em legumes. Para Koch, este é um ponto central da leitura da AMI: o consumo reage quando a cadeia consegue garantir disponibilidade, continuidade e fluidez. Onde isso falha, não é por falta de apetite do mercado, mas por instabilidade gerada a montante.
Na Alemanha, maior mercado europeu, esta dinâmica foi particularmente visível. O consumo cresceu ligeiramente, com bananas, pequenos frutos, manga e abacate a manterem volumes elevados. A maçã, apesar da produção abundante, perdeu tração no retalho, em parte devido à concorrência de produção doméstica fora do circuito comercial. Para a logística, isso traduziu-se em maior pressão na gestão de stocks, maior rotação em alguns produtos e menor previsibilidade noutros.
Koch descreve um modelo económico cada vez mais binário ao longo da cadeia. Ou compete no preço, exigindo eficiência extrema no transporte, no frio e no manuseamento, ou compete na diferenciação, o que implica consistência, rastreabilidade e fiabilidade logística contínua. O espaço intermédio encolhe. Para produtos frescos, onde o tempo é um fator crítico, esta polarização reflete-se diretamente em decisões de rede, contratos e investimentos.
Do ponto de vista do consumidor, o sistema funcionou. Em 2025, a fruta e os legumes tiveram um impacto reduzido no aumento do custo de vida e a oferta manteve-se ampla, incluindo no segmento biológico, que voltou a crescer em volume. Mas este equilíbrio tem um preço invisível. Enquanto a jusante a cadeia estabiliza, a montante os custos de produção continuam a subir e os preços pagos à origem permanecem pressionados.
É aqui que, na leitura da AMI, a logística assume um papel paradoxal. Quanto mais eficiente se torna, mais consegue amortecer o choque e mais prolonga um modelo estruturalmente desequilibrado. O risco não desaparece; acumula-se no produtor, que enfrenta um clima imprevisível, custos crescentes e pouca margem para negociar.
A leitura para 2026 é clara. A pressão vai continuar. A adaptação às alterações climáticas, a escassez de mão de obra e a necessidade de novos modelos de custo exigem uma cadeia mais flexível, mas também mais justa na distribuição de valor. A questão que fica não é se a logística consegue continuar a segurar o sistema. É, sim, quanto tempo o pode fazer sem que o ponto de rutura se desloque ainda mais para a origem.
FOTO: Messe Berlin



