“O futuro do procurement: digitalização, sustentabilidade e colaboração global” foi o tema que, na segunda-feira, 6 de outubro, levou à Nova SBE profissionais de compras do setor público e privado, consultores e prestadores de serviços, naquela que foi a edição de 2025 da Procurement Conferência, organizada pela Supply Chain Magazine.
E o tema que deu mote ao evento esteve em debate na mesa-redonda que encerrou o programa, moderada por Joaquim Oliveira, Partner and Supply Chain and Network Operations Leader da Deloitte. Refletindo uma mensagem que esteve presente ao longo de todo o dia, começou por afirmar que o procurement está em profunda transformação, muito por via da transformação digital, que vem responder a uma necessidade de redução de custos e de eficiência, mudando a forma como se trabalha e funcionando como suporte à decisão.
A propósito, deu nota das conclusões da edição de 2025 do Global Chief Procurement Officer Survey, da Deloitte: 95% dos CPO estão a lançar iniciativas de transformação digital, com a volatilidade e os custos crescentes a exigir um maior foco na adoção de estratégias de mitigação de risco.
Foi sobre o caminho percorrido na Câmara Municipal do Porto que se pronunciou Ricardo Silva, chefe da Divisão de Compras Transversais, para recordar como, em 2003, a autarquia deu os primeiros passos, lançando um piloto de desmaterialização de processos: rapidamente se concluiu que era mais eficiente, mas difícil explicar como funcionava e aprender, o que obrigou à simplificação e adoção de uma solução eletrónica única. Assim acontece desde 2013, com resultados claros: “Antes eram precisos três anos para dar autonomia a um comprador público, hoje são cerca de seis meses. Conseguimos melhores propostas dos fornecedores, conseguimos poupanças e conseguimos pagar melhor, o que gera melhores propostas. É todo o ciclo. E se não tivéssemos feito este caminho, não sei se o dobro da equipa chegaria.”
Também Andreia Chaves tem experiência de compras públicas: afinal, é diretora de Compras e Gestão de Materiais da ULS Loures/Odivelas. E, nessa qualidade, começou por recordar que, em Portugal, a contratação pública é pioneira na desmaterialização de processos, que remonta a 2009 e que aportou ao setor uma mudança de paradigma muito grande.
No caso da unidade de saúde em que trabalha, houve uma mudança mais recente – a de passagem de parceria público-privada a integração do setor público –, o que implicou uma colaboração para a qual as equipas não estavam preparadas. Daí a necessidade de comissões de escolha, comissões multidisciplinares que contribuem para a definição de modelos para a compra pública. “Comprar por concurso público tem mais regras e restrições, por exemplo, sobre a escolha dos materiais e a duração dos contratos, que, em algum sentido, funcionam como espartilho”, justificou.
Mas, sublinhou, o resultado final aporta valor para o procurement.
Nuno Pereira, cofundador e CEO da Paynest, concorda. E não podia ser de outra forma: afinal, a sua empresa é uma startup de génese tecnológica. Descartando a ideia de que a tecnologia vá substituir empregos humanos por robôs, sustentou que, pelo contrário, vai ajudar as pessoas a serem melhores profissionais. Desde logo por colocar ao alcance de todos os membros da equipa os dados que vão permitir tomar melhores decisões, na medida em que proporcionam um olhar holístico sobre o negócio.
A digitalização é – afirmou – o primeiro passo para repensar processos, contribuindo para evitar redundâncias, para detetar fraudes e para minimizar riscos. Em suma, vão originar um processo de compra “radicalmente diferente”.
Também Manuel Castelo-Branco, diretor de Compras do Grupo Gigas, vê na tecnologia a vantagem de uniformizar processos e de agilizar o procurement. Foi assim na sua empresa, com operações em várias geografias e processos em estágios de maturidade muito distintos. Adotar uma única plataforma para todo o grupo traduziu-se em maior qualidade.
No entanto, e não obstante os benefícios da tecnologia, deixou a nota de que, por mais transformações que haja, uma coisa não muda: a empatia e a ética na negociação.



