As crises já não chegam uma de cada vez. Sobrepõem-se. Conflitos prolongados, fenómenos climáticos extremos, desastres naturais, deslocações massivas de população e infraestruturas fragilizadas estão a transformar o mapa das emergências globais. Neste novo cenário, a logística humanitária deixou de ser uma resposta pontual a desastres, para se tornar numa operação quase permanente. Levar água, alimentos, medicamentos e abrigo a quem mais precisa implica hoje operar em ambientes instáveis, com rotas interrompidas, recursos limitados e decisões que têm de ser tomadas em horas. É nesse território, onde tudo pode falhar, que a logística revela o seu papel mais crítico: manter o essencial em movimento quando o mundo entra em crise.
Nas primeiras horas após uma catástrofe, a logística deixa de ser bastidor e passa a ser linha da frente. É ela que organiza a chegada de água, medicamentos, alimentos, abrigo e equipamento médico, quando estradas estão cortadas, aeroportos operam no limite, portos sofrem constrangimentos e as telecomunicações falham. Nesses momentos, a diferença entre resposta e desorganização mede-se em tempo, coordenação e capacidade de fazer chegar o essencial a quem mais precisa.
Durante décadas, estas operações foram vistas como respostas pontuais a acontecimentos extraordinários. Hoje, essa lógica já não chega para explicar a realidade. A resposta humanitária está a passar de “pontual” a “recorrente”, pressionada pela sobreposição de conflitos geopolíticos, eventos climáticos extremos, crises prolongadas e financiamento insuficiente.
Operar onde as infraestruturas falham
A ajuda humanitária depende de uma coordenação robusta entre governos, ONG, agências internacionais e operadores logísticos, e estes últimos têm um papel decisivo em garantir que os recursos chegam às populações afetadas, independentemente das circunstâncias.
Na DHL, essa resposta organiza-se através do programa GoHelp, criado para otimizar e acelerar a logística de resposta a desastres. Teresa Manso, Communication & Continuous Improvement director da DHL Express Portugal, confirma que as operações humanitárias se têm apresentado mais complexas, e que essa evolução foi precisamente um dos fatores que justificou o desenvolvimento de programas especializados.
Uma das mudanças mais significativas é o aumento da frequência e intensidade de desastres naturais. As alterações climáticas têm proporcionado fenómenos meteorológicos extremos como cheias, secas prolongadas, tempestades e incêndios. “Estes desastres não só são mais frequentes, como também mais devastadores, exigindo respostas de maior escala e mais sofisticadas”, indica. Além destes, têm-se observado crises prolongadas e conflitos geopolíticos, e crises de deslocamento populacional mais longas, que criam ambientes voláteis e perigosos para as operações humanitárias, impondo desafios logísticos e de segurança sem precedentes.
Desta forma, é preciso aplicar uma abordagem profissional e estratégias de mitigação de riscos. Por isso, a DHL GoHelp conta com profissionais “altamente treinados e preparados” – que recebem formação especializada em segurança e detêm um “profundo conhecimento” do contexto local – protocolos de segurança, tecnologia para rastreamento e monitorização e flexibilidade para recorrer a diferentes modos de transporte e mantuenção de parcerias estratégicas com outras organizações. É graças a este esforço que a ajuda chega a quem mais precisa, mesmo em circunstâncias desafiadoras.
Saúde, vacinas e visibilidade em tempo real
“Saúde e Ajuda Humanitária” é o segmento de atividade da UPS destinado ao apoio a operações humanitárias a nível global, nomeadamente na entrega eficiente e eficaz de mantimentos críticos como vacinas, equipamento médico e artigos de primeira necessidade em áreas carenciadas. Caroline Wanjiru Kiunga-Kihusa, Global Health and Humanitarian Relief director da UPS, destaca o papel da empresa na equidade vacinal durante a pandemia de Covid-19, nomeadamente através do apoio à entrega de última milha, do fornecimento de ultracongeladores e da formação de ministérios da saúde locais em resiliência da cadeia de abastecimento.
A empresa colabora com organizações como a Gavi, the Vaccine Alliance – para facilitar o acesso a vacinas em regiões subdesenvolvidos –, com a Zipline – especializada em entregas com drones– , e integra a Equipa de Emergência Logística (LET) para reforçar a capacidade de resposta rápida e eficaz a crises humanitárias.
Em ambientes de alto risco, a tecnologia tornou-se um aliado central para a antecipação de gestão de operações humanitárias. “A análise preditiva e a Inteligência Artificial são cada vez mais utilizadas para prever potenciais crises, permitindo o pré-posicionamento de mantimentos e uma alocação de recursos mais eficiente”, indica. Um exemplo disso é a parceria com o Programa Alimentar Mundial (PAM) e outras organizações na Data for Action Alliance, que prevê padrões de migração e outros indicadores de necessidades humanitárias iminentes. Paralelamente, a empresa desenvolveu plataformas que fornecem visibilidade em tempo real de voos de carga e operações logísticas, melhorando a coordenação e tempos de resposta.
A cadeia de frio e a logística médica sob pressão
Se há área em que a logística humanitária se torna particularmente exigente, é a da saúde. Na rede Médicos do Mundo, a logística é vista como “a espinha dorsal de qualquer intervenção humanitária”, nas palavras de Jonathan Vaillant, da Unidade de Logística e Aprovisionamento da Médicos do Mundo Espanha.
Na cadeia de frio, o grau de exigência é ainda maior. “Para pessoas em necessidade urgente ou vital, uma variação de apenas um grau pode fazer a diferença entre a eficácia de um fármaco e a perda irreversível dessa eficácia”, explica. Neste tipo de situações, um dos principais desafios é a ocorrência de cortes de energia generalizados que podem desativar os sistemas de refrigeração. Para solucionar o problema, são contratadas soluções de transporte especializado, ou são construídos armazéns equipados com sistemas de energia de reserva. A tecnologia avançada também se apresenta como um aliado, uma vez que ajuda a monitorizar o estado da temperatura utilizando dispositivos GPS.
Redes globais, hubs e preparação antecipada
Na International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies (IFRC), a transformação da logística humanitária está a ser respondida com uma arquitetura global de supply chain cada vez mais integrada. A federação, que reúne 191 sociedades nacionais, opera uma rede estruturada em hubs logísticos que asseguram serviços de ponta a ponta, do aprovisionamento ao armazenamento, transporte e coordenação alfandegária. Estes hubs são complementados por centros parceiros operados por sociedades nacionais com capacidades específicas, como fabrico em larga escala, aprovisionamento estratégico, logística especializada ou gestão de frota.
Cecile Terraz, director Global Humanitarian Services and Supply Chain Management da IFRC, sublinha que o que distingue a organização é o facto de os parceiros operados por sociedades nacionais estarem totalmente integrados nos seus serviços da cadeia de abastecimento, em vez de funcionarem em paralelo. “Isto cria a maior e mais descentralizada rede de cadeia de abastecimento humanitária do mundo, capaz de mobilizar mantimentos através de múltiplas vias, e levar assistência para mais perto de onde as pessoas vivem.”
Em caso de desastres naturais, a IFRC atua cada vez mais antes de o problema se manifestar totalmente. “A análise preditiva aciona o financiamento antecipado e a prontidão da cadeia de abastecimento, permitindo a libertação de stocks, a ativação de fornecedores e a garantia de rotas logísticas com antecedência.” Quando o desastre ocorre, as sociedades nacionais, já presentes nas comunidades, conseguem prestar assistência imediata, apoiadas pela cadeia de abastecimento global da federação. Já em cenários de conflito, o cenário é diferente: insegurança, sanções, restrições de acesso e infraestruturas danificadas. A resposta passa por trabalhar através de sociedades nacionais neutras e de confiança, adaptar rotas de aprovisionamento e transporte, e priorizar a conformidade e segurança. Ainda assim, Cecile Terraz revela que o princípio se mantém: “capacitar os operacionais locais com o apoio certo, no momento certo”.
A IFRC afastou-se deliberadamente da escolha entre o pré-posicionamento ou as compras locais ágeis para um modelo híbrido, baseado no risco, que combina ambos. Através da abordagem SPAN (Stock Preparedness and Network Access), a visão da IFRC já não assenta apenas no conceito de stock próprio, passando planear o acesso a mantimentos através de uma rede que inclui os centros da IFRC, armazéns das sociedades nacionais, stocks de parceiros e compromissos de fornecedores. Isto permite decidir antecipadamente o que deve ser pré-posicionado, o que pode ser adquirido rapidamente nos mercados, e quando é que o dinheiro ou vouchers são mais eficazes do que os bens físicos. “O resultado é uma resposta mais rápida, custos mais baixos e uma assistência melhor adaptada às realidades locais.”
A resposta local e a proximidade às comunidades
Se as grandes redes internacionais garantem escala, são as organizações no terreno que asseguram proximidade, rapidez e conhecimento local. Em Portugal, a Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) – uma das sociedades nacionais da IFRC – é um exemplo dessa capacidade de resposta descentralizada com forte coordenação nacional.
Com 159 estruturas locais – entre delegações e centros humanitários – em Portugal continental e ilhas, cerca de 5.000 voluntários ativos, e mais de 2.800 funcionários, a CVP dispõe de várias Plataformas Logísticas de Emergência (PLER) distribuídas pelo país: Oliveira de São Mateus, Beja, Ilha Terceira e, em desenvolvimento, no Algarve, a par de uma Plataforma Logística de Emergência Nacional (PLEN), em Coimbra, que funciona como armazém central, assegurando o apoio logístico às operações em todo o território nacional. Gonçalo Orfão, coordenador Nacional de Emergência da CVP, explica que a gestão logística das plataformas assenta num modelo descentralizado, mas fortemente coordenado. Em cada região, um coordenador regional é responsável pela respetiva PLER. Já a gestão operacional diária de cada plataforma é assegurada pelo Coordenador Regional de Emergência (CRE), que define e mobiliza as equipas maioritariamente compostas por voluntários.
“A Cruz Vermelha Portuguesa garante uma resposta logística rápida a eventos pontuais através de um modelo assente na prevenção, proximidade e coordenação”, afirma. Esse modelo assenta no pré-posicionamento de stocks nas suas plataformas logísticas regionais e nacionais, permitindo mobilizar, em poucas horas, bens essenciais, como alimentação, camas, kits de higiene, material de abrigo e apoio médico. A rede de plataformas assegura a proximidade geográfica às zonas afetadas, reduzindo significativamente os tempos de resposta, e conta com um sistema de ativação rápida que envolve as estruturas regionais e locais.
Pobreza, proximidade e logística humanitária em território nacional
A dimensão humanitária não se esgota na resposta a catástrofes internacionais. Em Portugal, ela cruza-se diariamente com pobreza, exclusão social e necessidades básicas persistentes. A Assistência Médica Internacional (AMI) é um dos exemplos dessa intervenção contínua.
A organização divide a sua intervenção em duas frentes: a internacional, na qual envia equipas médicas e de logística para países em crise; e a nacional, onde se foca na luta contra a pobreza e exclusão social. Em Portugal, gere vários Centros Porta Amiga – em cidades, como Lisboa, Porto, Almada ou Funchal – que disponibilizam apoio alimentar, balneários, serviços de lavandaria e ainda acompanhamento social a pessoas sem-abrigo ou a famílias carenciadas, além de Equipas de Rua para apoio direto.
Ana Luísa Ferreira, diretora de imagem e comunicação da Fundação AMI, explica que o serviço logístico é assegurado pelo departamento central em Lisboa e pelas delegações regionais, organizado e gerido o apoio a respostas sociais relacionadas com entregas diárias de alimentos, bens de higiene, entre outros. Anualmente, as equipas da AMI movimentam mais de 1.500 toneladas de bens ao serviço dos equipamentos sociais em todo o país. Só no primeiro semestre de 2025, a entidade apoiou 2.487 pessoas através da distribuição de géneros alimentares, com 5.439 cabazes entregues. No serviço de refeitório apoiou 856 pessoas, num total de 74.663 refeições.
Este é um tema que desenvolvemos em profundidade na SCMedia News #72. Leia aqui o artigo completo.
Fotografia: IFRC



