A escalada de tensões no Golfo está a comprometer fluxos críticos do transporte aéreo global e a colocar pressão acrescida sobre cadeias de abastecimento altamente sensíveis, como a farmacêutica e de life sciences. Segundo a Pharma.Aero, cerca de 20% do air cargo mundial está exposto a disrupções na região, num contexto em que a fiabilidade começa a sobrepor-se ao custo como principal preocupação operacional.
A crise geopolítica no Golfo está a provocar impactos significativos nas cadeias globais de abastecimento, com efeitos particularmente visíveis no transporte aéreo de mercadorias e na logística farmacêutica e no setor de life sciences.
A análise foi apresentada num webinar promovido pela organização internacional Pharma.Aero, que reuniu mais de uma centena de especialistas, operadores logísticos e fabricantes de medicamentos para avaliar as implicações operacionais da instabilidade na região.
De acordo com o Professor Wouter Dewulf, da Universidade de Antuérpia, cerca de 20% dos fluxos globais de carga aérea encontram-se atualmente expostos a disrupções no Médio Oriente, uma região que funciona como hub estratégico para ligações intercontinentais, em particular entre a Europa e a Ásia.
A redução do acesso ao espaço aéreo está a obrigar as companhias a redesenhar rotas, recorrendo a corredores mais longos e complexos. O resultado é um aumento dos tempos de trânsito, maior pressão sobre a capacidade disponível e uma subida das tarifas de frete.
Mais do que um problema de custo, os especialistas apontam para um risco crescente de perda de fiabilidade, fator crítico em cadeias logísticas sensíveis ao tempo e à integridade do produto, como é o caso da indústria farmacêutica.
Apesar de representarem uma pequena fatia do volume total transportado por via aérea, os medicamentos e dispositivos médicos estão entre as cargas de maior valor e exigência operacional. A necessidade de controlo de temperatura, prazos rigorosos e impacto direto nos doentes tornam qualquer disrupção particularmente crítica.
Neste contexto, empresas do setor estão a reforçar mecanismos de resposta, apostando em maior visibilidade sobre os fluxos logísticos, reconfiguração rápida de rotas e soluções multimodais.
Entre as principais medidas destacadas estão o uso de sistemas de monitorização em tempo real, a exploração de corredores alternativos, a combinação de transporte aéreo com rodoviário e o reforço de estratégias de dual sourcing e planeamento de contingência.
A experiência acumulada durante a pandemia tem sido determinante para acelerar esta adaptação. Ainda assim, a conclusão é clara: num ambiente cada vez mais volátil, a resiliência deixou de ser uma vantagem competitiva para passar a ser uma condição base. Para muitas organizações, o plano B e o plano C deixaram de ser opcionais para passar a ser componentes essenciais da estratégia de supply chain. Ao mesmo tempo, os participantes sublinharam a importância de uma colaboração contínua entre todos os intervenientes do ecossistema logístico das ciências da vida, como forma de garantir a entrega fiável de produtos de saúde a nível global.



