Num contexto em que a incerteza deixou de ser exceção para se tornar regra, o procurement enfrenta uma mudança de paradigma: o modelo VUCA já não chega para explicar, nem para gerir, a complexidade atual. Juliana José, neste artigo de opinião, propõe uma leitura mais exigente do presente, ancorada no conceito de BANI, e defende um reposicionamento claro da função: menos foco na “melhor opção” e mais na capacidade de garantir continuidade quando tudo o resto falha.
Anteriormente escrevi sobre ambientes VUCA e o impacto no procurement. Na altura, poderia parecer já um contexto exigente. Hoje, o modelo VUCA já não é suficiente.
Cada vez mais nos revemos no conceito de BANI — um mundo mais frágil, mais ansioso, menos previsível… e difícil de compreender.
B — Brittle (Frágil): sistemas que quebram facilmente
A — Anxious (Ansioso): pressão e incerteza constante
N — Nonlinear (Não linear): pequenos eventos → grandes impactos
I — Incomprehensible (Incompreensível): difícil de entender ou prever
E isso nota-se no dia a dia. O mundo está imprevisível e muito mais exigente.
Cadeias de abastecimento que julgávamos robustas revelam fragilidades. Pequenos desvios geram grandes impactos. E as decisões… essas continuam a ter de ser tomadas, mesmo sem toda a informação.
Na análise por parte das equipas de procurement “a melhor opção” deixa de ser protagonista principal, émandatório, mais do que nunca, que apresentemos soluções para “E se isto falhar?”.
O procurement pode, e deve, reforçar aqui, claramente, a sua posição sobre resiliência e continuidade. Contribuir para a decisão que é, agora, mais audaz do que nunca.
Hoje devemos valorizar mais relações sólidas com fornecedores, alternativas (mesmo que não sejam as mais baratas), a colaboração entre áreas e, sobretudo, a capacidade de adaptação rápida.
No fundo, o VUCA ensinou-nos a adaptar.
O BANI está a ensinar-nos algo mais difícil: aceitar que nem tudo é controlável — e ainda assim avançar.
E claramente que reforça o procurement enquanto pilar estratégico na continuidade operacional das organizações.
Ignorar esta evolução não é uma opção. A questão é: O procurement da nossa organização já mudou ao ritmo do mundo BANI?
Juliana José, Especialista de Compras



