Samuel Fortes, consultor em logística e gestão da cadeia de abastecimento, analisa, neste artigo de opinião, a evolução o Índice de Performance Logístico do Banco Mundial baseado em Big Data. O autor defende que esta mudança remove as barreiras que excluíam Cabe Verde, sublinhando que o foco deve agora transitar da presença simbólica no ranking para a resolução urgente das fragilidades estruturais do país.
O Índice de Performance Logístico (IPL), do Banco Mundial, é hoje uma das principais referências globais para avaliar a eficiência dos sistemas logísticos e a capacidade dos países se integrarem nas cadeias internacionais de abastecimento. Sustentado em seis indicadores, integra: eficiência aduaneira, qualidade das infraestruturas, envios internacionais, competência logística, tracking & tracing e previsibilidade.
Até 2023, baseava-se em perceções recolhidas junto de operadores logísticos internacionais. Em economias pequenas, insulares e com baixa densidade de interações logísticas globais, eram, sistematicamente, excluídas do ranking por insuficiência de amostra estatística — incapaz de captar realidades com menor escala e visibilidade internacional.
O novo modelo abandona essa lógica e passa a basear-se em dados reais de rastreamento logístico (Big Data), incluindo de Container Shipping Tracking (TradeLens, AIS e MarineTraffic); Air Cargo Tracking (Cargo iQ – IATA); Postal Logistics (Universal Postal Union – UPU); Shipping Network Connectivity (MDS Transmodal).
Estar no IPL não resolve nada por si só. O que o índice expõe, com rigor técnico, são fragilidades estruturais que já conhecemos: os verdadeiros pontos críticos, processos aduaneiros ainda pouco digitalizados; baixa integração entre portos, alfândega e operadores; dependência excessiva de hubs externos; escala reduzida e elevada fragmentação logística; défice de governação e coordenação sistémica.
Entretanto, se o nosso objetivo for posicionamento competitivo, e não apenas presença simbólica, então o foco tem de ser: consolidar a Janela Única Portuária (JUP) → evoluir para uma verdadeira Janela Única Logística; integração digital total → Porto + Alfândega + Operadores + Transporte; publicação de indicadores logísticos → medir para gerir; redução da dependência de hubs externos → estratégia clara de posicionamento regional; profissionalização e capacitação do setor → sem capital humano, não há sistema logístico.
A ausência histórica de Cabo Verde no IPL não refletia, somente, a qualidade real da logística, mas resultava de limitações metodológicas e fragilidade institucional. Com o novo modelo passamos a ter avaliação baseada em dados reais e criam-se condições objetivas para integração já nas próximas edições (incluindo 2026).
Contudo, o ponto crítico mantém-se: O índice não melhora o país. O país é que melhora o índice. No final do dia, o impacto não é técnico — é direto no custo de vida, na competitividade económica, na segurança alimentar e na atração de investimento.
Não vamos ficar a ver navios. Vamos medir, estruturar e executar.
Fontes e Bibliografia: https://lpi.worldbank.org/ https://www.youtube.com/watch?v=WRxRNyNThvU&t=2s https://documents.worldbank.org/en/publication/documents-reports/documentdetail/099818403132494097
Samuel Fortes Júnior, consultor em logística e gestão da cadeia de abastecimento | docente universitário | formador



