No transporte marítimo de mercadorias, há uma ilusão frequente: quanto maior o navio e parceiro, maior é a segurança. No entanto, esta ilusão de proteção conferida pelos gigantes do setor pode esconder uma vulnerabilidade crítica para os exportadores nacionais. Ricardo Ferreira, Key Account manager & especialista em Otimização de Supply Chain da JTD Transitos e Despachos, propõe uma reflexão sobre este tema, e deixa um alerta para os exportadores situados no norte do país.

Há um certo “novo-riquismo logístico” no mercado. Falo daquela ilusão corporativa de achar que, por se assinar um contrato de volume com um dos três maiores armadores ou mega-transitários do mundo, a nossa empresa passa automaticamente a ser um “TUBARÃO”. Sabem qual é a verdadeira realidade? A esmagadora maioria não passa de uma rémora, aquele peixe pequeno que viaja colado à barriga do tubarão, alimentando-se dos restos e acreditando que faz parte da caça.

E é precisamente aqui que muitos exportadores do norte de Portugal estão prestes a sentir o impacto. A indústria aplaude a dança de tronos das mega-alianças, cega ao tsunami operacional que aí vem. A fatura desta dependência absoluta está prestes a rebentar nos portos secundários. E preparem-se, porque o choque não vai ser apenas pesado. Vai ser brutal!

As mega-alianças traçaram um objetivo claro: superar 90% de fiabilidade de horários. Como é que um colosso consegue cumprir horários num mar de imprevistos? Simples: basta cortar na complexidade. O modelo de escalas diretas (ponto a ponto) está a ser sacrificado no altar do “Hub & Spoke”. Os navios oceânicos, gigantes de 24.000 TEUs, vão focar-se em tocar apenas em meia dúzia de mega-hubs “super eficientes”. Tudo o resto será alimentado por uma teia de navios de transbordo (feeders).

Sabem quem não é de todo eficiente? Exatamente isso que estão a pensar: Leixões. Para o tubarão, o que importa é descarregar milhares de contentores no mega-hub (Roterdão, Antuérpia, Algeciras) e dar a volta ao navio o mais rápido possível. E a rémora? A rémora que aguarde.

A partir do momento em que a carga é descarregada no hub, a sua prioridade cai a pique. A cadeia de abastecimento transforma-se numa roleta-russa de feeders. Se o porto hub congestiona ou o navio oceânico atrasa umas horas, o feeder parte sem a sua carga para poupar custos operacionais. Para o gigante, o seu contentor retido é apenas “ruído estatístico” de 1%. Para si, bem, sabe exatamente o que é para si.

É aqui que a ilusão do norte de Portugal se desfaz. Leixões, pela sua natureza e escala, fica na cauda deste sistema feeder. O exportador ou importador que confiou o seu planeamento cegamente ao mega-player, seduzido por uma poupança de 50 dólares no frete marítimo, vai pagar o preço em transit times descontrolados. Quando a carga ficar encostada 15 dias, ou mais, num hub europeu à espera de ligação para Leixões, o seu “parceiro tubarão” não vai desviar um navio para o salvar. Vai enviar-lhe um email automático a invocar que os tempos de trânsito são sempre uma estimativa.

Se não tem o volume de uma multinacional de topo, e são muito poucas que se podem gabar do título, pare de jogar o jogo dos gigantes com as regras deles. A resiliência não se compra com economias de escala cegas mas sim com pragmatismo, agilidade e, principalmente, com conhecimento.

Quando o sistema marítimo falha, precisa de um parceiro que não tenha de pedir autorização a um comité em Copenhaga ou Genebra para agir. Precisa de quem consiga, em horas, transitar a carga via terrestre desde portos espanhóis ou orquestrar soluções intermodais de emergência. As grandes operações exigem parceiros focados no terreno, que antecipam o estrangulamento aduaneiro e portuário de Leixões antes de acontecer.

No final do dia, a verdadeira força na logística não está no tamanho do navio em que a sua carga embarca, mas na capacidade de quem está sempre presente para ajustar as velas rapidamente quando a tempestade chega.

E a sua empresa? Está a nadar como um tubarão, ou apenas a viajar à boleia como uma rémora?

Ricardo Ferreira, Key Account Manager & Especialista em Otimização de Supply Chain | JTD Transitos e Despachos