A desaceleração da transição energética global poderá agravar os riscos económicos para países dependentes de combustíveis importados. O alerta surge no mais recente Energy Outlook da Crédito y Caución, que aponta para um pico mais tardio da procura por petróleo e gás e para preços energéticos elevados durante mais tempo, um cenário que pode pressionar as contas externas de várias economias e aumentar a exposição a choques geopolíticos.
A transição energética global poderá avançar a um ritmo mais lento do que o esperado, prolongando a dependência de combustíveis fósseis e mantendo os preços da energia elevados durante mais tempo. Esta é uma das principais conclusões do mais recente relatório Energy Outlook da Crédito y Caución, que alerta para o impacto económico desta evolução nos países fortemente dependentes de importações de energia.
De acordo com a análise, a procura por petróleo e gás deverá atingir o pico mais tarde do que o inicialmente previsto, refletindo atrasos estruturais na transição energética e dificuldades na expansão das energias renováveis. Este cenário poderá manter os preços dos combustíveis fósseis relativamente elevados na próxima década.
A situação representa um risco particular para economias que dependem fortemente de combustíveis importados. O relatório identifica 63 países cuja fatura líquida de importação de combustíveis ultrapassa 4% do Produto Interno Bruto, muitos dos quais mercados emergentes com défices significativos na balança corrente.
Segundo Niels de Hoog, economista sénior da Atradius, este contexto expõe novamente a fragilidade destas economias face à volatilidade energética.
“Com a desaceleração da transição energética e o desenvolvimento da guerra no Médio Oriente, muitas economias emergentes estão novamente à mercê das flutuações nos preços globais do petróleo”.
O relatório destaca que o abrandamento da transição energética está ligado a vários fatores estruturais. Apesar de o investimento global em energia ter ultrapassado 3,2 biliões de dólares em 2024, o crescimento desse investimento é limitado e permanece desigual entre regiões, com lacunas significativas nos países emergentes.
Ao mesmo tempo, os ganhos de eficiência energética, historicamente um dos principais fatores de redução da dependência de combustíveis fósseis, estão a enfraquecer. A melhoria anual da eficiência energética passou de cerca de 2% na década passada para apenas 1,1% em 2024, o que reduz a capacidade das economias para conter a procura por energia importada.
Outro desafio reside na lenta eletrificação de setores com elevado consumo energético, como o transporte pesado, a indústria e os sistemas de aquecimento. Embora as energias renováveis estejam a ganhar peso na produção elétrica, o seu impacto global na redução da procura de combustíveis fósseis continua limitado.
Energia mais cara durante mais tempo
Os cenários analisados no relatório indicam que o petróleo poderá atingir cerca de 80 dólares por barril em 2035 no cenário base, podendo aproximar-se dos 90 dólares num cenário mais pessimista, caso a transição energética avance de forma mais lenta.
Este contexto poderá agravar as vulnerabilidades externas de vários países importadores de energia. Em alguns casos analisados, o aumento dos custos energéticos poderá traduzir-se numa deterioração significativa das contas externas até 2035.
O relatório destaca ainda que estas economias enfrentam um “duplo risco”: por um lado, são frequentemente mais expostas aos impactos das alterações climáticas; por outro, permanecem altamente dependentes de combustíveis fósseis importados, tornando-se vulneráveis a choques de preços e a tensões geopolíticas nos mercados energéticos.
Perante este cenário, os analistas defendem que os países mais dependentes de importações energéticas terão de adotar uma estratégia mais abrangente para reduzir a vulnerabilidade económica.
Entre as prioridades identificadas estão o reforço do investimento em energias renováveis domésticas, a aceleração da eletrificação da economia e o aumento da eficiência energética. Paralelamente, os países deverão fortalecer a sua capacidade exportadora e reduzir a dependência de importações não energéticas, de forma a tornar as contas externas mais resilientes a oscilações nos preços globais da energia.



