A descarbonização do transporte de mercadorias deixou de ser um debate técnico, circunscrito à eficiência energética ou à substituição de combustíveis. Tornou-se um exercício estratégico de redesenho sistémico, onde tecnologia, infraestruturas, risco climático e decisões operacionais se cruzam de forma indissociável. É precisamente esta abordagem integrada que Raquel Miranda levará ao palco do Cargo Freight Portugal Summit 2026, no próximo dia 5 de março, desafiando o setor a olhar para a transição climática não como um conjunto de iniciativas isoladas, mas como uma transformação estrutural da arquitetura logística. Porque descarbonizar é, antes de tudo, repensar o sistema.

O transporte de mercadorias constitui um dos pilares da economia global e, simultaneamente, um dos seus maiores desafios ambientais. 

Segundo a International Energy Agency (IEA), o setor dos transportes foi responsável por cerca de 8,3 mil milhões de toneladas de CO₂ relacionadas com energia em 2022. O transporte rodoviário concentra aproximadamente três quartos dessas emissões, sendo os veículos pesados de mercadorias um contributo estrutural relevante. 

Este contexto, conjugado com metas climáticas progressivamente mais exigentes, maior escrutínio dos clientes e pressão regulatória, está a acelerar uma transformação profunda do setor. No entanto, respostas isoladas como eletrificação de frotas, adoção de combustíveis alternativos ou otimização de rotas — revelam-se insuficientes quando não integradas numa visão mais ampla. A descarbonização do transporte de mercadorias é, acima de tudo, um desafio de abordagem sistémica.

Durante décadas, a gestão de transportes apoiou-se numa lógica linear: menos quilómetros implicam menor consumo; maior eficiência reduz emissões; transferência modal diminui intensidade carbónica. Estas relações mantêm validade técnica, mas tornaram-se incompletas perante a complexidade atual. O cumprimento das metas climáticas no setor exige mudanças estruturais, incluindo análise de ciclo de vida, integração energética e articulação entre políticas públicas, infraestruturas e organização logística.

A eletrificação de camiões de longo curso ilustra bem esta realidade. Embora reduza emissões diretas, a ausência de capacidade adequada da rede elétrica, o planeamento de carregamento insuficiente ou a falta de coordenação operacional pode gerar atrasos, desvios e ineficiências que comprometem parte dos benefícios ambientais. A decisão tecnológica deixou de ser apenas operacional; passou a ser estratégica e interdependente.

Paralelamente, a agenda climática deixou de se restringir à mitigação. O próprio agravamento dos fenómenos meteorológicos extremos está a introduzir novos riscos operacionais. O Global Risks Report 2024 do World Economic Forum identifica os eventos climáticos extremos como um dos riscos globais mais severos na próxima década. 

No transporte de mercadorias, isso traduz-se em restrições de navegabilidade fluvial, encerramentos portuários, limitações ferroviárias e rodoviárias por ondas de calor e perturbações prolongadas na última milha. 

A resposta aos desafios de sustentabilidade passou a incorporar, de forma indissociável, a dimensão da resiliência e o reforço da robustez do sistema.

Neste contexto, estratégias eficazes exigem diversificação de corredores logísticos, integração sistemática de risco climático no planeamento, redundância operacional seletiva e reconfiguração adaptativa das redes. Descarbonizar é também 

A crescente complexidade operacional exige igualmente capacidade analítica compatível. A Inteligência Artificial e a analítica avançada permitem integrar variáveis energéticas, meteorológicas e operacionais em tempo quase real, otimizando rotas, velocidades e sincronização multimodal. 

No transporte marítimo, a Maersk reporta que a sua plataforma de eficiência energética contribuiu para poupanças superiores a 101 mil toneladas de combustível em 2023, correspondendo a cerca de 314 mil toneladas de CO₂. Estes resultados demonstram o potencial da tecnologia como instrumento de coordenação sistémica.

Contudo, a própria tecnologia implica consumo energético significativo, sobretudo em centros de dados. É necessário adotar metodologias rigorosas de medição dos impactos ambientais associados à computação e à Inteligência Artificial, incluindo a avaliação do ciclo de vida e tomar medidas claras para os mitigar.

Em síntese, a descarbonização do transporte de mercadorias não é um exercício isolado. É um processo de redesenho estrutural que envolve infraestruturas energéticas, configuração de redes logísticas, gestão de risco climático e capacidade analítica avançada. Organizações que adotarem uma visão integrada estarão melhor posicionadas para compatibilizar desempenho operacional, resiliência e conformidade regulatória.

A transição não é apenas ambiental. É estratégica.

Raquel Passos Miranda

Fontes:

International Energy Agency (IEA). Transport sector – CO₂ emissions and energy use

International Maritime Organization (IMO). Fourth IMO GHG Study 2020

IPCC. AR6 Working Group III – Chapter 10: Transport

Conselho da União Europeia. CO₂ emission standards for heavy-duty vehicles (2024)

World Economic Forum. Global Risks Report 2024

A.P. Moller – Maersk. Sustainability Report 2023

OECD. Measuring the environmental impacts of artificial intelligence: compute and applications