Esta semana, Juliana José, Especialista de Compras, lança uma reflexão pertinente sobre o papel dos indicadores no procurement contemporâneo. Quando o tema são os KPI, a discussão parece técnica, mas é, na verdade, profundamente estratégica. Saiba porquê.

 

No universo do procurement moderno, os indicadores de desempenho (KPI) tornaram se presença obrigatória. Medem poupanças, prazos, níveis de serviço, riscos e  conformidade. Importa, no entanto, colocar uma questão essencial — e muitas vezes  ignorada: a equipa de procurement deve apurar indicadores de gestão ou indicadores  para a gestão? A diferença semântica é subtil, mas o impacto estratégico é profundo. 

Os indicadores de gestão tendem a estar orientados para o controlo operacional. Servem  para reportar resultados passados, justificar decisões tomadas e demonstrar  cumprimento de objetivos previamente definidos. São, muitas vezes, números  produzidos para “mostrar serviço”: percentagem de savings alcançados, número de processos de compras concluídos, lead time médio de compras, número de  fornecedores ativos, taxa de cumprimento de contratos, entre outros.  

Embora úteis, estes indicadores correm o risco de se tornarem um fim em si mesmos,  afastando a função de procurement da sua verdadeira missão estratégica. Contudo, sem  dúvida, que a introdução sistemática destes KPI traz resultados concretos, com ganhos  reais, mensuráveis e inegavelmente importantes. 

Já os indicadores para a gestão têm uma natureza diferente. Não se limitam a retratar  o passado, ajudam a orientar decisões futuras. 

São ferramentas de apoio à gestão que permitem antecipar riscos, identificar  oportunidades, alinhar procurement com a estratégia organizacional e criar valor  sustentável. 

O problema surge quando a equipa de procurement se concentra excessivamente nos  primeiros e negligencia os segundos. Esta abordagem é frequentemente motivada por  pressões internas, como, por exemplo, modelos de avaliação de desempenho demasiado  focados em poupança financeira. Urge portanto reconhecer que, dando demasiada (ou  apenas) relevância a este tipo de indicadores, o resultado só pode ter uma função reativa,  orientada para métricas de curto prazo, em vez de uma função estratégica, parceira do  negócio. 

Importa por isso reconhecer que nem todos os indicadores têm o mesmo propósito.  Indicadores de gestão são necessários para garantir controlo, eficiência e transparência.  No entanto, quando dominam o sistema de medição, empobrecem a tomada de decisão.  

Assim, a questão não deve ser colocada em termos de “ou”, mas de prioridade e  equilíbrio. 

A equipa de procurement deve apurar indicadores de gestão, sim, mas reconhecer a  devida importância dos indicadores para a gestão — aqueles que permitem responder a  perguntas estratégicas como, por exemplo, identificar o grau de dependência de  fornecedores críticos (single source vs. multi-source), apurar o nível de risco da base de fornecedores (financeiro, geopolítico, operacional), aferir o volume de negócio com fornecedores estratégicos vs. transacionais, avaliar o índice de maturidade ESG da cadeia  de fornecimento, entre outras. 

É certo porém que a implementação destes indicadores exige maior esforço analítico e  colaboração com diversas áreas da organização. Mas é igualmente certo afirmar que os  resultados serão significativamente mais impactantes. Em contextos onde estes KPI  possam ser tidos em conta e orientar decisões, pode ser possível, por exemplo: 

➢ Reduzir ruturas de fornecimento;

➢ Antecipar falências de fornecedores estratégicos, evitando perdas operacionais;

➢ Reposicionar fornecedores-chave como parceiros de inovação, gerando melhorias  de produto e redução de custos totais (TCO);

➢ Alinhar decisões de compra com objetivos ESG, mitigando riscos reputacionais e  regulatórios. 

Em resumo, a principal diferença que a experiência ensina é clara: indicadores de  gestão explicam o passado, indicadores para a gestão moldam o futuro. Quando uma  equipa de procurement se limita aos primeiros, corre o risco de ser vista apenas como  um centro de custos eficiente. Quando também domina os segundos, passa a ser  reconhecida como um verdadeiro parceiro estratégico do negócio. 

Importa,no entanto, sublinhar que não se trata de escolher um tipo em detrimento do outro. A função precisa de ambos, mas devemos reconhecer e defender que o verdadeiro  procurement que cria valor não é o que mede mais, mas o que mede melhor. Não se trata  de produzir mais indicadores mensuráveis como tanto se argumenta nos manuais de  gestão, mas produzir melhores indicadores.  

Indicadores que não sirvam apenas para gerir processos, mas para orientar a gestão,  influenciar decisões estratégicas e posicionar o procurement como uma função  crítica para o sucesso organizacional.

Juliana José, Especialista de Compras