A segunda edição do Barómetro do Risco Geopolítico para Empresas, promovido pelo Observatório do Risco Geopolítico para Empresas da Porto Business School, confirma aquilo que muitos gestores já sentem na prática: a geopolítica deixou de ser ruído de fundo e passou a variável estratégica central nas decisões empresariais.
O estudo, realizado entre 8 e 20 de dezembro de 2025, com base em 330 respostas válidas de executivos de empresas com operação nacional e internacional, identifica como principais riscos, a curto e médio/longo prazos, os ciberataques de grande dimensão, a crise financeira e a disrupção das cadeias de abastecimento.
Os ciberataques de grande escala, enquadrados numa lógica de ameaça híbrida com eventual patrocínio estatal, surgem no topo das preocupações. São considerados risco elevado por 63% dos inquiridos, tanto a um como a três anos. O estudo sublinha o potencial cruzamento entre riscos “ciber” de natureza criminal e estritamente geopolítica, justificando a liderança deste fator no ranking.
Também os conflitos intraeuropeus — quer na sua forma cinética, quer sob a forma de ameaças híbridas — reforçam a perceção de instabilidade, sendo apontados como risco elevado por 63% das empresas no curto prazo e por 53% no médio e longo prazo.
A possibilidade de uma nova crise financeira, impulsionada por instabilidade geopolítica e choques económicos, é classificada como risco elevado por 58% dos respondentes.
Para Jorge Rodrigues, co-coordenador do Observatório do Risco Geopolítico para Empresas da Porto Business School, trata-se de um risco que entra “num terreno familiar”“, com memória ainda viva da crise de 2007, agravado pela perceção de que o risco geopolítico pode desencadear perda de confiança nos mercados, afetar o investimento e pressionar o crédito.
Cadeias de abastecimento sob pressão
A eventual disrupção das cadeias de abastecimento sobe ao terceiro lugar das maiores inquietações, sendo considerada risco elevado por 55% das empresas. Entre organizações exportadoras e importadoras, a perceção é ainda mais intensa: 72% identificam a disrupção logística como risco elevado, refletindo a maior exposição ao comércio internacional.
Segundo o Barómetro, os conflitos comerciais entre EUA, China e União Europeia descem para o quinto lugar, tanto a um como a três anos. Jorge Rodrigues aponta a adaptação das empresas ao chamado “efeito Trump” e a estratégia negocial da União Europeia como fatores que poderão ter contribuído para essa descida, embora admita que riscos mais complexos — como o programa nuclear do Irão ou a crise de Taiwan — possam alterar este equilíbrio.
De forma considerada surpreendente, a negação de acesso à tecnologia surge apenas nas oitava e sexta posições (a um e três anos), apesar do contexto de competição geoeconómica, em especial entre Estados Unidos da América e China. Também a desinformação associada à Inteligência Artificial aparece apenas na nona posição.
Entre outras preocupações figuram ainda explosões nucleares ou biológicas e químicas, radicalização e migrações.
Setorialmente, a indústria transformadora identifica a disrupção das cadeias de abastecimento como principal risco, seguida dos ciberataques e dos conflitos na Europa. Já nas empresas financeiras e de seguros, destaca-se a elevada perceção de risco associada às questões energéticas.
Mitigação: mais parcerias e mais capacidade interna
Face a este cenário, as empresas privilegiam estratégias de mitigação baseadas em parcerias estratégicas (44%), tratados multilaterais (42%), reforço da capacidade interna através de I&D (40%) e melhoria da preparação geopolítica (37%).
Segundo Jorge Rodrigues, “o reforço do conhecimento geopolítico como estratégias de mitigação, através da investigação e desenvolvimento, revelam que o setor empresarial pretende aumentar as suas competências e meios endógenos e não ficar apenas à espera do Estado para mitigar riscos geopolíticos. O apoio estatal não é uma prioridade, embora se acredite, talvez um pouco em contraciclo face ao afastamento da multilateralidade no plano global, na necessidade de concretização de tratados internacionais estabilizadores”.
A mensagem do Barómetro é inequívoca: a instabilidade geopolítica já não é um risco periférico. É uma variável estrutural na gestão, na estratégia e na resiliência das empresas portuguesas.
Paralelamente, a Porto Business School prepara a 8.ª edição do open executive program “Risco Geopolítico e Estratégia para Executivos”, desenvolvido com o Instituto da Defesa Nacional, que enquadra a geopolítica como fator estratégico com impacto direto na sustentabilidade, resiliência e competitividade. A formação arranca a 5 de março, com candidaturas abertas até 2 de março.
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