A instabilidade deixou de ser exceção e passou a fazer parte do dia a dia das cadeias de abastecimento. Em 2026, tecnologia, risco, energia e sustentabilidade cruzam-se com decisões cada vez mais complexas. Neste artigo, Marcelo Ikaro, especialista em supply chain na Peers Consulting + Technology, analisa as principais tendências globais e prioridades estratégicas — da inteligência artificial à reconfiguração das redes logísticas — e explica porque antecipar é hoje uma condição para garantir resiliência, eficiência e vantagem competitiva.

 

Em 2026, o cenário para as cadeias de suprimentos globais exige um ajuste contínuo. Após anos de instabilidade geopolítica, disrupções e pressão inflacionária, a gestão de riscos e a capacidade de adaptação se tornam o foco principal. A tecnologia é cada vez mais um requisito básico para a resiliência operacional e temas como sustentabilidade e eficiência energética passam a ser considerados fatores de custo e de conformidade. Nesse contexto, a logística precisa evoluir de uma função de custo para um elemento de diferenciação e suporte ao crescimento do negócio.

 

As principais tendências globais em 2026

Neste momento, a cadeia de suprimentos global se encontra em um ponto de inflexão. A busca por eficiência, resiliência e a necessidade de atender a novas regulamentações impulsionam inovações que redefinirão a forma como produtos e serviços são entregues. As tendências a seguir indicam onde os recursos e o foco estratégico estão sendo direcionados no mundo.

1. IA Generativa e Torres de Controle: o cérebro da cadeia de suprimentos autónoma

A Inteligência Artificial transcende a automação de tarefas e se torna o cérebro preditivo da operação. Em 2026, a IA generativa e os assistentes conversacionais se integram de forma nativa às plataformas de planejamento (S&OP), sendo capazes de analisar cenários, antecipar rupturas de estoque com base em variáveis complexas (como clima e tendências sociais) e otimizar políticas de estoque em tempo real.

Essa inteligência alimenta as Torres de Controle 5.0, que evoluem de painéis de visualização para centros de comando proativos. Elas não apenas oferecem visibilidade de ponta a ponta, mas também executam ações corretivas de forma autônoma, ajustando rotas, realocando inventário e se comunicando com fornecedores para mitigar disrupções antes que elas impactem o cliente final. A adoção dessas tecnologias se torna um fator decisivo para a agilidade, com empresas líderes esperando aumentar a eficiência de estoque em até 20%.

2. ESG Real e Descarbonização: a rastreabilidade como moeda de confiança

A agenda ESG atinge um ponto de maturidade regulatória e de mercado. A rastreabilidade deixa de ser um discurso de marketing para se tornar uma obrigação comprovável. Pressionadas por normativas internacionais e pela necessidade de reportar emissões, as empresas passam a investir massivamente em tecnologias como blockchain, RFID e sensores embarcados para garantir a integridade dos dados e a transparência de suas cadeias.

A logística verde se consolida como uma frente de inovação e eficiência. A descarbonização da frota, a otimização de rotas para redução do consumo de combustível e o design de embalagens sustentáveis não são apenas respostas à pressão dos consumidores, mas também estratégias para a redução de custos operacionais e mitigação de riscos regulatórios futuros.

3. Nearshoring e a Nova Geografia Logística: a resiliência da proximidade

A era da dependência de cadeias de suprimentos longas e de baixo custo vem terminando. A busca por resiliência acelera a adoção de estratégias de nearshoring e regionalização.

Em 2026, a formação de clusters industriais em regiões próximas aos centros de consumo se intensifica, reduzindo a dependência de componentes asiáticos e fortalecendo ecossistemas produtivos mais autônomos. A proximidade dos centros de consumo se torna uma necessidade econômica, forçando uma descentralização estratégica de estoques e operações para garantir entregas mais rápidas e baratas.

4. Automação inteligente e a ascensão das instalações “Power-Ready”

A automação avança para além dos robôs em centros de distribuição, alcançando um nível de hiperautomação que integra processos de ponta a ponta. Robôs autônomos (AMRs), sistemas de picking automatizados e drones de inventário se tornam padrão em operações de grande escala, impulsionando a produtividade e a precisão a níveis inéditos.

Essa transição cria uma nova demanda crítica: energia. As operações automatizadas e de manufatura avançada podem exigir até cinco vezes mais energia. Como resultado, a disponibilidade de energia entra para o conjunto de fatores decisivos na escolha de novos locais para galpões e centros de distribuição, tornando-se um diferencial competitivo crucial para os operadores logísticos.

Prioridades estruturantes: o cenário do supply chain no Brasil

Enquanto as tendências globais ditam o futuro da inovação e da sustentabilidade, o cenário brasileiro apresenta desafios e oportunidades mais estruturantes, que exigem atenção imediata dos

líderes de Supply Chain. A complexidade regulatória e a dinâmica logística do país impõem prioridades específicas que, quando endereçadas, podem gerar um impacto competitivo significativo no curto e médio prazo.

1. Reengenharia logística devido à Reforma Tributária

A aprovação da Reforma Tributária no Brasil força uma reengenharia logística histórica. A prioridade imediata para as empresas é a corrida para entender o impacto do novo sistema e aproveitar os últimos momentos de benefícios fiscais regionais, ao mesmo tempo em que se preparam para o ajuste ao novo cenário. O foco migra da arbitragem de impostos para a eficiência operacional. Isso impulsiona a busca por Centros de Distribuição (CDs) próximos da demanda, onde a velocidade e o last mile se tornam os novos diferenciais competitivos, em detrimento da localização puramente fiscal.

2. Otimização de fretes

A questão dos fretes no Brasil é uma prioridade que transcende a Reforma Tributária, embora seja afetada por ela. Os custos logísticos vêm subindo de forma consistente e a escassez de motoristas se agrava no contexto nacional. O foco aqui é a busca por alternativas e a maximização da produtividade: “Como fazer mais com menos?”. Isso envolve a adoção de tecnologias de otimização de rotas, a consolidação de cargas, a negociação com transportadoras e a exploração de modais alternativos, transformando a gestão de fretes em um exercício de eficiência e inovação.

3. IA Generativa: o benefício tremendo da riqueza de dados

O Supply Chain, por sua natureza, é uma das áreas com maior quantidade de dados capturados durante o processo. No Brasil, essa riqueza de dados representa um benefício tremendo para a aplicação da IA Generativa, podendo ser a chave para destravar a eficiência em processos complexos e voláteis. No entanto, é necessário que os investimentos em IA sejam bem planejados para que as empresas do setor, de fato, consigam usufruir dos resultados.

Como se preparar para o Futuro da Supply Chain em 2026?

Diante das transformações iminentes, a preparação para 2026 exige uma abordagem multifacetada e proativa. As empresas devem focar em:

1. Adaptação regulatória e estratégica (Brasil): priorizar o entendimento e o ajuste à Reforma Tributária, reavaliando a malha logística para posicionar CDs próximos da demanda e otimizar o last mile.

2. Otimização logística (Brasil): focar na gestão de fretes, implementando soluções para aumentar a produtividade e mitigar o impacto do aumento de custos e da escassez de mão de obra.

3. Investimento em tecnologia (Global/Brasil): priorizar soluções de IA para otimização de planejamento, análise preditiva e automação de processos, aproveitando a vasta base de dados do Supply Chain.

4. Estratégias de resiliência (Global): diversificar fornecedores e explorar o nearshoring para reduzir a dependência de cadeias de suprimentos vulneráveis.

5. Sustentabilidade e rastreabilidade (Global): integrar a agenda ESG nas operações, investindo em tecnologias de rastreabilidade para garantir conformidade regulatória e transparência.

6. Eficiência energética (Global): adaptar a infraestrutura logística para suportar a demanda energética de operações automatizadas, buscando instalações “power-ready”.

Em síntese, em 2026, as empresas que souberem equilibrar a adaptação às exigências locais com a adoção pragmática de tecnologias globais não apenas sobreviverão, mas irão se destacar no mercado. A logística, mais do que nunca, é a espinha dorsal da vantagem competitiva.


Fontes:

· Tendências de supply chain para 2026 | Slimstock

· 7 tendências globais que transformarão o setor de logística em 2026 | Exame

· Previsões de supply chain e varejo para 2026 | ComputerWeekly

· 7 tendências para o Comex e a logística em 2026 | Ruckhaber

Marcelo Ikaro, especialista em supply chain | Peers Consulting + Technology