Remota na geografia, central na estratégia. A Gronelândia voltou ao centro do debate internacional não como curiosidade política, mas como peça-chave num tabuleiro onde se cruzam segurança, recursos críticos, rotas emergentes e comércio internacional. A posição assumida por Donald Trump, agora reforçada por ameaças tarifárias dirigidas a países da União Europeia, expõe uma tendência mais profunda: a crescente politização das cadeias de abastecimento globais.
A leitura norte-americana é clara. O Ártico deixou de ser uma fronteira distante para se tornar um espaço estratégico ativo, num contexto marcado pelo degelo progressivo, pela corrida aos minerais críticos e pela rivalidade entre grandes potências. A Gronelândia surge, assim, como ponto de controlo entre o Atlântico Norte, o Ártico e futuras rotas transpolares, ao mesmo tempo que concentra recursos relevantes para a transição energética e a indústria de defesa.
Entre os principais fatores que explicam o renovado interesse dos Estados Unidos está o potencial da Gronelândia em terras raras e minerais estratégicos, essenciais para baterias, energias renováveis, semicondutores e aplicações militares. Num mundo que procura reduzir dependências externas, em particular face à China, o acesso a estas matérias-primas ganhou uma dimensão de soberania económica.
Esta lógica está a moldar decisões de investimento, cadeias de fornecimento e políticas industriais. Para a logística e a supply chain, traduz-se numa aceleração do friend-shoring, numa maior fragmentação de origens e numa crescente interferência política em fluxos que antes eram essencialmente económicos.
O degelo do Ártico introduz outra variável crítica. Rotas marítimas alternativas entre a Ásia, a Europa e a América do Norte começam a ser tecnicamente viáveis, ainda que de forma sazonal. A promessa é conhecida: redução de tempos de trânsito e menor dependência de pontes de estrangulamento tradicionais como Suez, Bab el-Mandeb ou Panamá.
Contudo, do ponto de vista operacional, estas rotas estão longe de ser uma solução linear. Infraestruturas limitadas, clima extremo, elevados prémios de seguro, riscos ambientais, dependência tecnológica fazem do Ártico… em vez de simplificação, o que emerge é um comércio global mais complexo, com corredores alternativos que aumentam a exigência de planeamento e os níveis da gestão de risco.
Segurança, alianças e comércio como arma
É neste enquadramento que surgem as recentes ameaças tarifárias de Donald Trump a países da União Europeia que tomem posição contrária às pretensões norte-americanas sobre a Gronelândia. O argumento central assenta na segurança do Atlântico Norte e na necessidade de conter a influência da Rússia e da China no Ártico. Na prática, o comércio passa a ser usado como instrumento de pressão geopolítica.
Para as cadeias de abastecimento, este sinal é particularmente relevante: tarifas, sanções e restrições comerciais deixam de ser exceção e passam a integrar o cenário base de risco. O multilateralismo dá lugar a blocos, alinhamentos estratégicos e decisões condicionadas por critérios políticos, com impacto direto nos custos, nos contratos e na previsibilidade dos fluxos.
Na newsletter da APAT de 16 de janeiro, António Nabo Martins, presidente executivo da associação, alertou para as consequências operacionais deste novo contexto: “O risco operacional aumenta, devido à volatilidade das rotas, ao agravamento dos prémios de seguro, à utilização mais frequente de cláusulas de força maior e à crescente complexidade documental, associada a sanções e ao controlo de bens de dupla utilização.” O responsável sublinhou ainda uma mudança estrutural no papel do setor: “A logística pode perder a sua neutralidade tradicional e o transitário corre o risco de se tornar, cada vez mais, um verdadeiro gestor de risco geopolítico.”
Entre fragmentação e oportunidade
Apesar do aumento da incerteza, este redesenho do comércio global pode abrir janelas estratégicas para alguns mercados. A fragmentação das rotas e a procura por alternativas mais curtas e resilientes podem valorizar hubs regionais e portos periféricos nas rotas tradicionais, incluindo no eixo atlântico europeu.
O pano de fundo, porém, é inequívoco: a Gronelândia tornou-se símbolo de uma nova fase do comércio internacional, menos linear, mais politizada e estruturalmente mais exigente para a logística e a supply chain. Um cenário onde eficiência e custo continuam a contar, mas onde geopolítica, segurança e risco passam a pesar tanto quanto o frete ou o tempo de trânsito, para não dizer que até mais.
MAPA: The Arctic Institute



