O Global Risks Report 2026 do World Economic Forum aponta o confronto geoeconómico como o principal risco global no curto e médio prazo, num contexto de fragmentação política, pressão económica e aceleração tecnológica, com impactos diretos no comércio internacional e nas cadeias de abastecimento.
O confronto geoeconómico é hoje o principal risco global no curto e médio prazo, num mundo cada vez mais fragmentado, competitivo e marcado pela erosão da cooperação multilateral. A conclusão é do World Economic Forum, no Global Risks Report 2026, publicado poucos dias antes da Reunião Anual de Davos, que decorre entre 19 e 23 de janeiro.
Baseado num inquérito a mais de 1.300 líderes globais e especialistas em risco, o relatório identifica uma mudança estrutural para uma “era da competição”, na qual tarifas, restrições ao comércio, controlo de investimentos, disputas por recursos críticos e fragmentação tecnológica passam a ser fatores permanentes, e não excecionais.
Cadeias de abastecimento no centro da tensão geoeconómica
Segundo o Fórum, o confronto geoeconómico representa uma ameaça direta ao comércio internacional, ao investimento transfronteiriço e à estabilidade das cadeias globais de abastecimento. O risco inclui cenários como bloqueios portuários, restrições à exportação de bens estratégicos, cancelamento de contratos e controlos de capitais, com impacto potencialmente sistémico para empresas e economias.
Este risco ultrapassa, em 2026, o de conflito armado entre Estados, que liderava o ranking no ano anterior, refletindo a crescente instrumentalização da economia como arma política.
Os riscos económicos são os que mais sobem no ranking face a 2025. A possibilidade de recessão económica e de inflação persistente subiu oito posições, enquanto o risco de rebentamento de bolhas de ativos avançou sete lugares.
O relatório alerta para uma combinação particularmente instável: endividamento elevado, menor crescimento económico e investimentos incertos em tecnologias emergentes, como inteligência artificial e computação quântica. Num contexto de confronto geoeconómico, este cocktail pode amplificar choques não apenas empresariais, mas também sociais.
Tecnologia: entre aceleração e vulnerabilidade
A tecnologia surge simultaneamente como fator de mitigação e de risco. A desinformação, a ciberinsegurança e os efeitos adversos da inteligência artificial figuram entre os principais riscos no horizonte de dois anos.
No horizonte de 10 anos, os riscos associados à IA registam a maior escalada: passam do 30.º lugar no curto prazo para o 5.º lugar no longo prazo, refletindo preocupações com impacto no emprego, estabilidade social, segurança da informação e uso militar de sistemas automatizados.
O Fórum sublinha a necessidade de governação, educação, requalificação e mecanismos de controlo, para evitar que a velocidade tecnológica ultrapasse a capacidade de resposta das instituições e das empresas.
A polarização social mantém-se como um dos riscos mais persistentes do sistema global, figurando no top 10 tanto no curto como no longo prazo há cinco anos consecutivos. O relatório destaca a interligação entre desigualdade económica, degradação do bem-estar, desinformação e tensão geopolítica, criando um ciclo de instabilidade difícil de travar.
Um mundo mais fragmentado e multipolar
Embora os riscos ambientais tenham perdido peso relativo no horizonte de dois anos — face a ameaças económicas e geopolíticas mais imediatas — continuam a dominar a perspetiva de longo prazo. Eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e alterações críticas dos sistemas da Terra ocupam os primeiros lugares no horizonte de 10 anos.
Para 68% dos inquiridos, a próxima década será marcada por um sistema político global mais fragmentado e multipolar. Apenas 6% acreditam numa revitalização do modelo multilateral do pós-guerra.
É neste contexto que a Reunião Anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, decorre sob o mote “A Spirit of Dialogue”, sublinhando a urgência de restaurar canais de cooperação num mundo em que a incerteza se tornou estrutural.
“O futuro não é um caminho único e inevitável, mas o resultado das decisões que tomamos hoje como comunidade global”, conclui o relatório.
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