Assinado por Anabela Guerreiro, profissional com ampla experiência na indústria do transporte e da supply chain, este artigo analisa uma transformação estrutural na logística global. Após décadas de foco quase exclusivo na eficiência e na previsibilidade, os transitários são hoje chamados a assumir um papel estratégico na gestão de risco, num contexto marcado por crescente incerteza geopolítica. Integrar análise de risco e resiliência nas cadeias de abastecimento deixou de ser uma vantagem competitiva para se afirmar como uma necessidade crítica para quem opera em mercados voláteis.

Durante décadas, a logística internacional foi gerida sobretudo com base na eficiência, no custo e na previsibilidade. Este modelo, que permitiu ganhos significativos de produtividade e escala, tende hoje a esgotar-se. O contexto global mudou de forma estrutural e irreversível.

Conflitos armados, sanções económicas, instabilidade política, tensões comerciais e rivalidades geopolíticas passaram a ter impacto direto e imediato nas cadeias de abastecimento globais. A disrupção deixou de ser exceção. Tornou-se estrutural.

Neste novo enquadramento, o papel do transitário está a evoluir de forma profunda. De operador logístico a gestor de risco, o transitário já não é apenas um executor operacional, mas um parceiro estratégico na tomada de decisão dos seus clientes. A sua função estende-se hoje à leitura do contexto internacional, à antecipação de cenários e à mitigação de riscos que podem comprometer a continuidade do negócio.

Na prática, esta transformação traduz-se num conjunto de responsabilidades cada vez mais exigentes, nomeadamente:

  • Avaliação de riscos por rota e por país;

  • Proposta de alternativas logísticas viáveis em contextos instáveis;

  • Assegurar a conformidade com regimes de sanções e restrições comerciais;

  • Apoiar decisões críticas dos clientes em ambientes de elevada incerteza.

Este posicionamento está alinhado com abordagens estruturadas de gestão de risco, como o COSO ERM (Enterprise Risk Management) e a norma ISO 31000, que defendem a integração do risco na estratégia organizacional e não apenas na operação. A logística deixa, assim, de ser vista exclusivamente como um centro de custos e passa a assumir um papel central na resiliência e na continuidade das cadeias de abastecimento.

Pode afirmar-se, com segurança, que a eficiência sem resiliência é hoje uma forma de vulnerabilidade. Modelos logísticos excessivamente otimizados para o custo revelam fragilidades significativas quando expostos a eventos geopolíticos de elevado impacto. A gestão moderna da supply chain exige, por isso, uma abordagem mais abrangente e estruturada, assente em:

  • Mapeamento sistemático de riscos;

  • Planos de contingência efetivos;

  • Monitorização contínua do contexto internacional;

  • Comunicação clara, consistente e proativa com os clientes.

Em ambientes voláteis, onde a geopolítica dita cada vez mais o ritmo do comércio global, a liderança assume um papel crítico na mitigação do risco. Decidir com base em informação sólida, comunicar de forma transparente e preservar a confiança dos stakeholders são hoje competências essenciais no setor logístico, particularmente para quem opera na linha da frente do transporte internacional.

Em suma, a questão já não é saber se ocorrerão novas disrupções geopolíticas, mas quem estará preparado para as enfrentar quando surgirem. Os transitários que investem em gestão de risco, análise geopolítica e liderança estratégica não estão apenas a proteger a sua operação. Estão a posicionar-se como parceiros críticos das cadeias globais de abastecimento.

“In times of change, learners inherit the earth, while the learned find themselves beautifully equipped to deal with a world that no longer exists.”
Eric Hoffer

Anabela Guerreiro, Business Development Manager | Robert Kukla Portugal