Cinco anos após a saída do Reino Unido da União Europeia, os dados mais recentes da Food and Drink Federation confirmam que as barreiras não tarifárias continuam a penalizar o comércio alimentar, com impacto direto nos fluxos logísticos, na previsibilidade operacional e nas ligações entre o Reino Unido e mercados europeus, incluindo Portugal.

 

Cinco anos após a saída do Reino Unido da União Europeia, os efeitos do Brexit consolidaram-se como um fator estrutural na organização das cadeias de abastecimento europeias. Os dados mais recentes do setor alimentar confirmam uma realidade já bem conhecida por operadores, transitários e exportadores: menos volume nas trocas com a UE, maior fricção operacional e ajustamentos profundos nos fluxos logísticos.

De acordo com números divulgados no final de 2025 pela Food and Drink Federation (FDF), as exportações britânicas de alimentos e bebidas para a União Europeia caíram 23,4% quando comparado o período pós-Brexit (2021–2025) com os cinco anos anteriores. Em termos físicos, os volumes passaram de 6,7 mil milhões para 5,1 mil milhões de quilogramas, refletindo um reposicionamento significativo das trocas intra-europeias.

As quebras mais acentuadas registaram-se em mercados com forte peso logístico — Alemanha (-59,1%), Polónia (-51,9%) e Bélgica (-39,9%) — países que funcionam como plataformas de consolidação, distribuição e ligação intermodal no espaço comunitário.

 

Barreiras não tarifárias ganham peso na equação logística

Ao contrário do que poderia ser expectável, a retração não resulta de tarifas aduaneiras, mas sim do impacto acumulado das barreiras não tarifárias introduzidas após o Brexit. Certificados sanitários e fitossanitários (SPS), controlos fronteiriços adicionais, novas exigências de rotulagem e maior carga documental aumentaram custos, tempos de trânsito e incerteza nas operações.

No terreno, os efeitos são claros: maior exposição a atrasos, sobretudo em produtos perecíveis; custos administrativos mais elevados ao longo da cadeia; redução da atratividade do mercado europeu para exportadores de menor dimensão.

A FDF reconhece que um futuro acordo SPS entre o Reino Unido e a União Europeia poderá mitigar parte destes constrangimentos, mas sublinha que não eliminará todas as fricções e exigirá períodos de adaptação operacional.

Em contraste com o recuo europeu, as exportações globais britânicas de alimentos e bebidas cresceram 5,8% em 2025, impulsionadas por mercados fora da UE. Destinos como a Índia (+9,6%) e os países do Conselho de Cooperação do Golfo (+6,3%) ganharam relevância.

Esta diversificação, contudo, implica cadeias mais longas, maior dependência de transporte marítimo e aéreo e um planeamento mais exigente, sem compensar totalmente a perda de proximidade, frequência e previsibilidade que caracterizavam o comércio com a União Europeia.

 

Portugal–Reino Unido: impacto indireto, mas estrutural

Embora os dados sejam apresentados à escala europeia, o impacto estende-se às relações comerciais entre Portugal e o Reino Unido, particularmente nos fluxos alimentares e agroalimentares. Produtos portugueses como vinho, azeite, conservas e hortofrutícolas continuam a depender de cadeias rápidas e fiáveis, agora sujeitas a maior escrutínio documental e planeamento mais rigoroso.

Este contexto tem reforçado a especialização de operadores nos fluxos UK–UE, a necessidade de maior previsibilidade e gestão de risco. bem como a conformidade regulatória como fator crítico de competitividade. Qualquer avanço ao nível de alinhamento regulatório ou simplificação SPS terá impacto direto na eficiência destas cadeias, reduzindo tempos de espera e custos indiretos.

 

2026: estabilização com novos equilíbrios

Com sinais de reaproximação política entre Londres e Bruxelas, 2026 poderá marcar uma fase de estabilização progressiva. No entanto, o regresso ao modelo pré-Brexit não é expectável. O cenário mais provável aponta para procedimentos permanentes, ainda que mais simplificados, e para uma maior seletividade dos mercados servidos.

Cinco anos depois, o Brexit deixou de ser um choque e passou a ser uma variável estrutural da logística europeia. No setor alimentar, os números confirmam uma tendência clara: menos volume, maior complexidade e uma gestão cada vez mais exigente das cadeias de abastecimento.