Para lá do impacto político imediato, a captura de Nicolás Maduro levanta questões mais profundas sobre a exposição das cadeias globais a choques geopolíticos, energéticos e institucionais. Num contexto em que logística, energia e decisão estratégica estão cada vez mais interligadas, Francisco Holanda analisa o episódio como um teste à maturidade dos processos de supply chain e à capacidade das organizações para absorver risco sem colapsar.

O mundo não está instável. Ele está a pagar o preço de cadeias globais desenhadas para funcionar apenas em cenários de normalidade.

A captura de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, vai muito além de um episódio político. É um choque operacional num sistema onde geopolítica, energia e supply chain já não funcionam de forma isolada.

Falo aqui sem ideologia. Falo como alguém de processos, qualidade e operação.

A Venezuela continua a ser relevante no petróleo. E sempre que energia entra em tensão, o impacto não fica nos discursos. Ele chega rápido à realidade: combustível mais caro, fretes pressionados, lead times instáveis e decisões com margem mínima para erro.

Mas, nenhuma análise séria de supply, hoje, é completa sem olhar para Estados Unidos e China.

Um define regras, moeda, sanções e risco. O outro sustenta a fábrica do mundo, mesmo enquanto redesenha as suas próprias dependências

Quando um ajusta poder, o custo propaga. Quando o outro recalibra produção, o supply global sente.

O que vem a seguir não é surpresa. É padrão:

  • pressão no custo energético
  • volatilidade logística
  • contratos revistos à pressa
  • cadeias eficientes a falharem por falta de resiliência

E aqui está a minha posição mais clara:

Processo não existe para tempos calmos. Processo existe para absorver choque sem colapsar.

Quando o combustível sobe:

  • cadeias frágeis entram em reação;
  • indicadores viram explicação tardia;
  • decisões passam a ser improviso;
  • e a operação paga hoje o que não foi desenhado ontem.

Supply chain maduro não tenta prever o futuro. Prepara cenários adversos, protege decisões e impede que crises externas virem caos interno.

Geopolítica não cria problemas operacionais. Apenas expõe o que nunca foi verdadeiramente estruturado.

A pergunta que importa agora é simples e desconfortável:

👉 Se o custo da energia subir amanhã, o seu processo absorve o impacto ou transfere o caos para dentro da operação?

Francisco Holanda, Farmacêutico | Experiência em Supply Chain na Saúde e Segurança do Paciente