2026 começa da pior forma para a economia global. A escalada de tensão na Venezuela surge como mais um sinal de alerta num contexto internacional já marcado por conflitos prolongados, sanções, instabilidade política e crescente fragmentação do comércio. Para a supply chain global, o episódio reforça uma realidade incontornável: o risco geopolítico deixou de ser excecional e passou a ser uma variável estrutural, com impacto direto no planeamento, na logística e na previsibilidade dos fluxos comerciais.

 

Os desenvolvimentos recentes na Venezuela demonstram, uma vez mais, como eventos políticos e militares podem rapidamente transbordar para a esfera operacional, expondo infraestruturas críticas, condicionando o transporte marítimo, influenciando mercados energéticos e obrigando empresas e operadores a rever estratégias de gestão de risco. Num sistema global altamente interligado, os choques deixam de ser locais e tornam-se sistémicos.

Num contexto internacional já marcado por tensões no Mar Vermelho, no Mar Negro e em corredores logísticos estratégicos, a situação na Venezuela reforça uma tendência clara: eventos políticos e militares têm hoje capacidade de gerar constrangimentos logísticos quase imediatos, mesmo quando não visam diretamente cadeias de abastecimento globais. O risco deixa, assim, de ser excecional para passar a estrutural, exigindo novas abordagens ao planeamento, à gestão de fornecedores e à avaliação de exposição geográfica.

 

Infraestruturas críticas sob pressão

Informações provenientes de fontes do setor energético e logístico indicam que infraestruturas críticas ligadas ao sistema portuário venezuelano foram afetadas, num contexto em que as principais unidades de produção e refinação de petróleo não registaram danos diretos.

Esta distinção é particularmente relevante para a leitura da cadeia de abastecimento: mesmo sem impacto imediato na produção, a fragilidade logística pode comprometer a fluidez dos fluxos comerciais, afetando importações, exportações e o abastecimento interno. Em economias altamente dependentes de poucos nós logísticos, qualquer disrupção ganha rapidamente escala sistémica.

Antes mesmo desta intervenção dos Estados Unidos em Caracas, o setor marítimo já enfrentava constrangimentos significativos na região. A combinação de bloqueios a navios, restrições operacionais e cautela por parte dos armadores levou a um aumento de stocks, à utilização de navios como armazenamento flutuante e, mais recentemente, a ajustes temporários na produção petrolífera, não por falhas industriais, mas por limitações logísticas. Paralelamente, a empresa estatal PDVSA começou a reduzir produção de crude devido a um embargo de exportação que deixou o país sem espaço de armazenamento e paralisou os fluxos de exportação, essenciais para a receita e o comércio externo.

 

Mercados energéticos e implicações para a supply chain

O setor energético é um dos canais pelos quais o impacto geopolítico venezuelano se projecta globalmente nas cadeias de abastecimento. Analistas apontam que o futuro da produção petrolífera venezuelana — actualmente em torno de cerca de 900 mil barris por dia — dependerá fortemente da evolução da política de sanções dos EUA, que continuam em vigor e influenciam diretamente o preço e o fluxo de crude no mercado global.

Segundo analistas do banco Goldman Sachs, citados pela Reuters, os riscos para os preços do petróleo no curto prazo são ambíguos e moderados, com as previsões de preço médio para 2026 mantidas em cerca de 56 dólares por barril para Brent e 52 dólares para WTI, e produção venezuelana estável no nível atual. Porém, a longo prazo, uma recuperação gradual da produção poderia, em cenários optimistas e com investimentos maciços, reduzir preços em cerca de 4 dólares por barril até 2030 se a produção atingir 2 milhões de bpd.

Isto traduz-se em duas coisas importantes:

  • a curto prazo, os mercados energéticos não estão a reflectir um choque imediato, em parte devido a uma oferta global ainda robusta e a factos como a manutenção de produção noutras regiões, o que tem levado os preços a flutuar mas não disparar;
  • a médio e longo prazo, se houver relaxamento das sanções e investimento substancial em infraestruturas, a Venezuela poderá tornar-se novamente relevante como produtor, alterando equilíbrios regionais e globais de energia, com efeitos em contratos, seguros, investimentos e planeamento logístico associado ao transporte de energia.

 

Armadores internacionais em modo de monitorização

Até ao momento, não foram divulgadas posições públicas de grandes armadores internacionais sobre a situação na Venezuela. A postura dominante tem sido de monitorização ativa, com avaliação contínua de riscos de segurança, seguros marítimos e conformidade regulatória.

Este comportamento é consistente com o observado noutros contextos de instabilidade geopolítica: as decisões operacionais tendem a ser graduais e comunicadas apenas quando existe impacto directo e sustentado nas rotas ou nos portos envolvidos.

As sanções internacionais já existentes sobre a Venezuela limitam a exposição direta de muitos serviços regulares, mas não eliminam os riscos indiretos, nomeadamente ao nível de custos, seguros e percepção de risco regional.

 

O que dizem os analistas de risco

Centros de análise e especialistas em risco geopolítico começaram a enquadrar os acontecimentos como um factor de instabilidade estrutural, com potencial para se prolongar no tempo.

O Atlantic Council sublinha o risco de um período prolongado de incerteza política e económica, com impacto na previsibilidade dos fluxos comerciais. Já análises publicadas pela Reuters apontam para efeitos indirectos nos mercados e nas decisões empresariais, mesmo sem reacção imediata nos preços da energia.

O Global Conflict Tracker do Council on Foreign Relations passou igualmente a integrar a Venezuela como foco ativo de instabilidade, sinalizando a relevância do tema para gestores de risco e responsáveis de supply chain.

O caso venezuelano reforça uma conclusão que tem vindo a consolidar-se: a geopolítica é hoje um custo estrutural da supply chain global.

Para empresas e operadores, isso implica integrar risco geopolítico no planeamento operacional; avaliar portos, rotas e hubs como ativos estratégicos sensíveis; assim como reforçar resiliência, redundância e cenarização.

Num ambiente global cada vez mais volátil, a questão central já não é se a geopolítica terá impacto nas cadeias de abastecimento, mas como antecipar, absorver e responder a disrupções que podem surgir de forma súbita e prolongada.

FOTO: FREEPIK, imagem gerada por IA