Gonçalo Lobo Xavier, director-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), comenta em entrevista ao Jornal I que não existe razão para alarmismos e que, apesar da escassez de matérias-primas global e da dificuldade de reposição de alguns produtos, as prateleiras da grande distribuição irão continuar a ser abastecidas. No entanto, não esconde que daqui possam advir aumentos dos custos dos próprios produtos, situação que já se verifica nalguns casos.

Começando por contextualizar com o retalho alimentar, uma grande fatia das empresas que representam, tem havido uma pressão muito grande nalgumas áreas de produtos alimentares, como é o caso dos cereais e dos custos das matérias-primas a eles associados.

“Isso é evidente que tem impacto em toda a cadeia de valor. Mas é preciso avisar que nós não estamos com uma escassez de alimentos ou com algum problema”, explica o responsável à fonte, “temos é uma enorme pressão sobre alguma produção e que, a par de alguma escassez de matérias-primas, vem também com o aumento do custo dos combustíveis e dos preços da energia, e que impactam toda a produção agrícola e a própria distribuição dessa produção”.

O responsável conta que o que se está a sentir é uma junção de vários entraves na cadeia de abastecimento, e que isso está a aumentar os custos de produção, o que “provoca uma certa tensão entre produção, indústria e distribuição, que tarde ou cedo terá impacto no preço de alguns produtos”.

Em causa está o aumento do preço do trigo, e isso envolve todos os seus derivados, como é o caso do pão. Devido ao aumento dos custos da energia e dos combustíveis, também os hortofrutícolas irão ser impactados. “A distribuição alimentar é um negócio de volume. É um negócio em que as margens alimentares estão na ordem dos 2%, 3%, há vários estudos que o dizem”, comenta Gonçalo Lobo Xavier.

O negócio rentável, aponta, é quando “há muito volume de vendas e há uma enorme eficiência na logística, em comprar bem, no transporte”, e os aumentos dos custos associados à logística e à produção estão a dificultar a flexibilidade nos preços dos produtos. “Ainda não estamos em níveis preocupantes mas há uma enorme pressão na cadeia de valor que começa na produção, passa pela indústria e acaba na distribuição”, explica o responsável.

Aponta ainda uma outra dimensão que sofre também com a escassez de matérias-primas, esta ao nível do retalho especializado. Neste caso, aponta os problemas ao nível do abastecimento de chips a nível mundial, e o impacto que tem tido nas cadeias de abastecimento por todo o mundo, afectando especialmente a electrónica de consumo: “estamos a falar de questões que vão desde telemóveis até computadores, passando por varinhas mágicas, até. Tudo o que tem uma componente electrónica está, neste momento, sob uma pressão enorme e há uma escassez muito grande a nível mundial”.

No caso deste mercado especializado, são ainda afectados pelas importações de produtos, sendo que grande parte dos componentes provêm da Ásia, e tem-se assistido a grandes perturbações nalgumas fábricas. Os cortes de energia são outro entrave que tem levado a quebras de produção, “e se associarmos isso ao aumento exponencial dos custos de transporte marítimo e à chamada crise dos contentores, compreende-se que, neste momento, os custos mudaram. Há um ano e meio importar um contentor estava na ordem dos 1.500 dólares, agora está entre os 10.000 e 15.000 dólares”.

De forma a conseguirem responder ao crescimento que o Natal irá gerar na movimentação de bens, as empresas começaram a preparar-se vários meses antes. Mesmo assim, aponta que alguns segmentos de produtos, como computadores, telemóveis ou alguns produtos de electrónica e alguns brinquedos, serão mais difíceis de abastecer. “Não vamos ter prateleiras vazias, mas vamos ter uma maior dificuldade de reposição, assim que um produto que seja muito apetecível para o consumidor acabe”, aponta o responsável da APED.

Como exemplo no segmento afectado pela crise dos chips, Gonçalo Lobo Xavier exemplifica que hoje a encomenda de um automóvel pode levar a um tempo de espera de seis meses até ser entregue, e acrescenta que o mesmo pode acontecer a algum tipo de bicicletas.

Em conclusão, Gonçalo Lobo Xavier esclarece que “neste momento a nossa grande preocupação tem sido manter a cadeia de abastecimento a funcionar. E isso implica não só uma relação de proximidade muito grande com a produção nacional como uma relação de confiança”.

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