Ao desenhar um processo sobre a localização de uma cadeia de abastecimento para um cliente OEM, ao escrever supply chain, por erro escrevi supply china.

Fez-me pensar e refletir sobre esta realidade em que muitas economias estão hoje tão dependentes dos abastecimentos da China, quer seja de matéria-prima base, quer seja de produtos manufaturados.

Para muitos mercados, de facto tem sido supply china management e não supply chain management.

A China é um centro produtivo em massa fundamental para as economias globais dependentes desta capacidade produtiva. Este centro de produção em massa, permitiu uma competitividade de custo que foi financeiramente vantajoso para as empresas / economias compradoras. Porém, esta vantagem, teve a clara desvantagem da dependência excessiva neste mercado.

As fragilidades deste abastecimento ficaram claras nesta crise. Há alguns fatores-chave a ter em conta:

  • Força de trabalho: com os “lockdowns” e restrições nem todas as fábricas conseguiram / conseguem produzir de forma normalizada;
  • Logística: Atual desbalanceamento de movimentos provocou uma falta de contentores para o transporte marítimo;
  • Custo Logísticos: custo de transporte de contentores da Ásia para a Europa, subiu de 2 mil euros para valores acima de 15 mil euros (quando há disponibilidade);
  • Escassez de matérias-primas: Com a subida em flecha da procura de alguns bens, como cartão (ex. caixas Amazon) e semicondutores (aumento de consumo nos bens tecnológicos) aliados à alteração dos hábitos de consumo com pandemia;
  • Energia: Redução das produções na Ásia devido à conversão “verde”.

A título de exemplo:

O custo dum contentor da Ásia foi de cerca de 2.000 euros para valores agora a rondar os 15.000 euros. Se estivermos a importar bens de grande valor acrescentado, como iPads, o impacto pode ser marginal. Mas, se estivermos a importar fibras poliéster, em que se compra a 1,5€/kg e transporta-se cerca de 20.000 quilos num contentor, estaremos a falar de um aumento superior a 40%. Isto, quando há contentores e disponibilidade de produção.

Estes são os contornos da atual tempestade perfeita, em que se manifestou claramente a excessiva dependência das nossas economias às produções da China.

E isto não se cinge às importações de matéria-prima na Europa.

Num projeto de desenho de mapeamento dum produto que era fornecido via países da Europa, Ásia e América, concluímos que a produção base de matéria-prima era na China na mesma. E os efeitos eram sentidos igualmente nestas regiões.

Estaremos perante mudanças significativas futuras de produção de matérias-primas base e commodities? O que a história nos diz, é que não.

Os custos de transporte não devem a curto prazo voltar aos valores anteriores (pré-Covid), e espera-se uma estabilização no futuro a custos 2,5 vezes superior ao anterior, como a norma do futuro.

Como exemplo, temos as máscaras cirúrgicas (commodities), em que foi feito grandes investimentos na Europa, e quando os preços na China estabilizaram, os Europeus em massa voltaram a comprar na China, e as produções europeias paralisaram em muitas instâncias.

Alternativas? Na Europa são escassas neste momento.

Com isto, as nossas indústrias devem apostar na inovação, design e valor acrescentado para continuar no mercado com competitividade. Inovação esta que deve ser vista no início do projeto, tendo uma visão 360 desde captação de matérias-primas à vida final dos artigos. Só com esta visão conseguimos mitigar futuros riscos.

Até lá, focar e investir no supply chain management, o caminho para vencer a crise.

Rui Oliveira, Business Partner, ONE AUTOMOTIVE ALLIANCE

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