Os sectores da logística e dos transportes têm registado, na última década, uma transformação profunda nos seus processos de gestão e modelos operativos. Os modelos mais complexos e integrados de supply chain, em que o foco passa a ser toda a cadeia de valor – englobando ciclos de produção e comercialização – trouxeram o imperativo de novas estratégias e competências.

O contexto envolvente e variáveis exógenas (crescimento e diversificação do comércio internacional, a acelerada transformação digital do sector, mudança nos mercados e preferências dos clientes – com a explosão do comércio online) foram indutores de várias transformações. A recente pandemia, que colocou toda a eficácia do sector sob os holofotes das sociedades e respectivas opiniões públicas, foi o mais recente acelerador de novas mudanças. O paradigma da rede construída com critérios de lead times reduzidos e preços mínimos ficou em cheque nos últimos meses. Os custos da excessiva dependência de fontes únicas e da falta de adaptabilidade aos choques e ao imprevisto foram revelados em vários sectores – o material médico-hospitalar foi apenas o exemplo mais evidente.

As tendências futuras apontarão para uma maior flexibilidade e sourcing diversificado e “multinível”. Centros logísticos a nível regional serão essenciais para assegurar uma supply chain mais resiliente e adaptável, com assemblagem e entregas mais locais. Uma maior visibilidade, em tempo real, de todo a cadeia, será essencial no esforço de planeamento, gestão e controlo. E muitos analistas referem igualmente o ressurgir do elemento humano, na gestão da imprevisibilidade e na tomada de decisões em períodos críticos – um regresso ao princípio de “autonomation” (automação com um toque humano), vindo do lean manufacturing e popularizado pela Toyota.

Como fazer face a estes desafios? Com tecnologia, claro. Mas, acima de tudo, com novas lideranças e culturas organizacionais.

A nível tecnológico, se os últimos 5 anos foram intensos, os próximos 5 serão aceleradíssimos. A massificação das comunicações 5G permitirá uma Internet of Things (IoT), que conectará equipamentos, veículos e sistemas de controlo. A Artificial Intelligence (AI) e Machine Learning, desenvolverão algoritmos que autonomizarão fluxos com cada vez menos intervenção humana. A eficiência flexível e descentralizada de Blockchain/ Distributed Ledger Technology, permitirá maior fluidez dos projectos logísticos. E a Augmented Reality permitirá melhor gestão de armazéns e inventário – para além de ser um instrumento útil em vários processos RH, como integração e formação.

Nestes sectores, em que a “tecnicidade”, a engenharia do processo e o capital humano intensivo on-site têm a devida primazia, importa ressalvar as componentes Liderança e Cultura. O ecossistema do negócio logístico será cada vez menos linear e previsível. As revoluções nos modelos de trabalho exigirão lideranças com propensão à proximidade e ao apoio, ao empowerment e desenvolvimento constante da autonomia das suas equipas – já sem o “comando e controlo”, paradigma de outros tempos. Lideranças que, acima de tudo, proporcionem visão, contexto, suporte e desafio e deixem às pessoas as decisões mais operacionais. As culturas terão também, em coerência, de ser realinhadas. Maior informalidade, agilidade e flexibilidade, tolerância ao erro e ao risco e promoção da criatividade e inovação para resolução de problemas serão ingredientes mandatórios. Culturas que potenciem a adopção de metodologias agile, segmentando grandes projetos em melhorias incrementais geríveis, permitindo equipas mais autónomas, detecção mais rápida de falhas e uma alocação mais eficiente de recursos. Culturas confortáveis com novos modelos de trabalho remotos e híbridos, que mantenham a coesão e eficácia funcional das equipas.

Como sinalizar a mudança cultural? Para começar, as equipas de gestão terão de comunicar mais e melhor. Dar o exemplo nos fluxos top-down, incentivar o bottom-up, promover a comunicação lateral, destruindo os “silos de comunicação” departamentais para potenciar soluções conjuntas e partilhadas.

Seja na estrutura logística de uma empresa, seja no seio de um operador ou prestador de serviços, as culturas e lideranças colaborativas, facilitadoras da adaptabilidade e da inovação estruturada serão as prevalecentes no supply chain. Os novos tempos assim o exigirão.

Carlos Sezões | Managing Partner | Darefy – Leadership & Change Builders

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