A GS1 Portugal promoveu na quarta-feira um debate sobre “O futuro do trabalho: reskilling, upskilling & newskilling – Liderança e Gestão do Talento” reunindo, para isso, responsáveis de recursos humanos de grandes empresas nacionais. Apesar das diferentes experiências e visões há, em boa parte, uma perspectiva consensual: “falta-nos a visão para o futuro”.

A primeira parte, dedicada ao tema “Pessoas, Educação e Mérito”, arrancou com a intervenção de João Pita Negrão, Senior Manager da área de Business Consulting | Human Capital, da Deloitte Portugal, em conjunto com Marisa Garrido, Directora de Recursos Humanos dos CTT.

João Pita Negrão comparou o modo de trabalho no período pré-pandémico e o sistema actual, realçando a necessária capacidade de adaptação. O Senior Manager destacou ainda o estudo que a Deloitte realizou sobre o futuro no trabalho, contando com a participação de várias empresas que dão a conhecer os desafios que enfrentaram e também aqueles que se avizinham num médio prazo. Dando como exemplo prático a realidade dos CTT, Marisa Garrido destacou “a audácia e cooperação de todos os colaboradores em assegurar o foco no trabalho e a saúde e protecção das pessoas” no primeiro confinamento. Sendo um serviço essencial, afirmou ainda que “as competências dos trabalhadores se mostraram relevantes nesta situação, nomeadamente a capacidade de liderança para assegurar que todas as decisões tomadas, no dia-a-dia e no terreno, eram as mais indicadas”.

Já Cléber Castro, Líder de Produtos e Estratégia da Great Place to Work® Portugal, falou da importância de analisar o interior das organizações, ouvindo as pessoas, ajustando e implementando planos e acções com base no feedback recebido. “Desta forma, avaliar se se trata de um Great Place to Work, revela-se fundamental para a missão das empresas na análise de oportunidades de crescimento e desenvolvimento de negócio”, concluiu Cléber Castro.

A fechar a primeira parte do evento, Pedro Santa Clara, Professor Catedrático de Finanças na NOVA SBE e co-fundador da Shaken Not Stirred, empresa orientada para projectos de educação, um dos quais a Escola 42 Lisboa, realçou que “a melhor forma de aprender algo, é ter a necessidade de o ensinar a outros”. Para tal, salientou a importância de desenvolver capacidades humanas como a colaboração, autonomia, criatividade e adaptação. “O programa Escola 42 é um modelo de aprendizagem radicalmente diferente e que consiste em lançar aos alunos um desafio: apesar de terem a possibilidade de se deslocar até à escola física, estes não possuem aulas nem professores. Desta forma, para responder aos desafios propostos, fica à responsabilidade de cada aluno adoptar métodos de pesquisa para os concretizar. O objectivo é levá-los a adaptar-se à resolução de problemas complexos, preparando-os para o futuro”, explicou durante a sua intervenção.

O painel-debate,  sobre o tema central do evento e moderado por Luís Ferreira Lopes, consultor da Presidência da República para a COTEC e para o Conselho da Diáspora, contou com a participação da Luís Simões, Grupo SECIL, Nestlé Portugal, Randstad Portugal e Sonae SGPS.

Para Ana Vicente, Head of People & Leadership da Sonae SGPS, “o período que atravessamos tem sido muito desafiante, com muita mudança”, mas acredita que “ainda teremos de nos adaptar para o que aí vem”. A responsável de recursos humanos da Sonae SGPS, destacou também “a janela de oportunidade criada com a pandemia no que diz respeito à evolução digital e ecológica das empresas”. Neste âmbito, Ana Vicente acredita ser essencial “preparar melhor o futuro para a capacitação dos colaboradores”, destacando o digital como uma oportunidade para a formação de pessoas.

“Se há coisa que a pandemia nos trouxe de bom foi a possibilidade de contratar pessoas que estão fora do país. Há agora uma abertura para a captação de novos talentos, ainda que seja igualmente importante manter o foco na formação de lideranças, porque uma maior flexibilidade no modelo de trabalho também traz desafios”, explicou Ana Vicente. Para o futuro, prevê que seja essencial o upskilling e reskilling dos colaboradores, não esquecendo “a necessidade de preparar as lideranças para esse futuro também”.

Na sua intervenção, Isabel Moisés, Directora Executiva de Recursos Humanos do Grupo Secil, realçou o desafio da empresa em lidar com uma crise pandémica estando presente em vários países com culturas e formas de trabalhar muito distintas. “Esta situação revelou a necessidade dos líderes estarem mais próximos das suas equipas, além de ter vindo realçar a solidariedade e a empatia com o outro dentro da organização”, explicou Isabel Moisés. Quanto ao futuro, acredita “que é responsabilidade das empresas analisar a mudança que já aconteceu e transformá-la numa oportunidade”.

Já Maria do Rosário Vilhena, Head of Human Resources da Nestlé Portugal, acredita que o futuro passa por um modelo de trabalho híbrido, porque o momento de convivência entre as pessoas é importante para o desempenho das suas funções. Sobre o que se segue para as empresas, Maria do Rosário Vilhena reforça que “mais do que atrair novos talentos é essencial requalificar e recapacitar o talento que já existe dentro das equipas”. “Aquilo de que precisamos hoje não é aquilo de que iremos precisar daqui a 5 ou 10 anos e também sabemos que há pessoas que não vamos conseguir reconverter, mas é crucial mantermos o nosso papel de responsabilidade social para com esses colaboradores”, clarificou. A responsável de recursos humanos da Nestlé Portugal falou do projecto-piloto com a Sonae SGPS e a Sapo com vista a capacitar pessoas desempregadas ou em risco de desemprego para voltarem ao mercado de trabalho. “Ainda não existe uma estratégia nacional de requalificação. Falta-nos a visão para o futuro, estamos focados no hoje. Tem de haver uma aposta forte no ensino dual, no ensino técnico, precisamos desses profissionais para o futuro”, concluiu.

Mariana Canto e Castro, Directora de Recursos Humanos, Randstad Portugal, reforçou, na sua intervenção, a importância de não “desaprender” as lições retiradas desta pandemia, destacando a “capacidade de liderar em proximidade sem necessidade de intrusão” como essencial para a gestão e liderança de pessoas e equipas. “Tem de existir um equilíbrio entre a proximidade e o distanciamento, sob a máxima liberdade com a máxima responsabilidade”, explicou, realçando ainda a importância “do feedback do gestor directo, identificando pontos bons e pontos a melhorar, assim como do feedforward”. Para o futuro “é crucial que haja um alinhamento entre o sector do ensino e o sector empresarial, porque temos empresas a pedir-nos pessoas que não existem ainda no mercado de trabalho”, afirmou.

O painel de debate contou ainda com a participação de Pedro Palmeiro, Gestor de Recursos Humanos da Luís Simões Portugal que acredita que a pandemia “trouxe às chefias a oportunidade de conhecerem melhor os seus colaboradores e até aprofundar relações com um contacto mais próximo e pessoal”. Para Pedro Palmeiro, “o teletrabalho será uma ferramenta de futuro, porque as pessoal já provaram que facilmente se adaptam às exigências do dia-a-dia”.

Em jeito de síntese, Luís Ferreira Lopes, moderador do debate, concluiu que “é tempo de arregaçar as mangas com nova energia, não desperdiçar a experiência adquirida e continuar a ter uma permanente vontade de reinvenção”.

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