Procurando uma meta ambiciosa, que envolve duplicar a capacidade já existente (somando todos os tipos de vacinas), a indústria farmacêutica pretende produzir 10 mil milhões de vacinas contra o COVID-19. O maior entrave agora é a matéria-prima para suportar essa produção, respondendo às necessidades e cumprindo os prazos de entrega. A notícia foi avançada pelo Expresso.

Pela complexidade das cadeias de abastecimento, o aumento da produção da vacina não é uma questão fácil de resolver, pois envolve diversos fornecedores, e é necessário garantir toda a matéria-prima para a sua produção, pois se um fornecedor falhar existe um novo problema, e o desafio é fazer com que nada falhe. Como exemplo, apenas para a produção da vacina da Pfizer BioNTech são necessárias 280 substâncias, adquiridas a 86 fornecedores, dispersos por 19 países.

Os fabricantes de vacinas não apresentam tanta dificuldade ao nível da capacidade, e sim do acesso aos materiais necessários para a produção, ou de materiais de apoio. Para além de terem de se abastecer com materiais em quantidades nunca antes necessárias, têm ainda de adquirir vidro para o fabrico de frascos, plástico ou tampas, o que gera uma grande dependência de diversos fornecedores. Nuno Vale, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e investigador na área de farmacologia, explica que “o problema não é tanto a falta de capacidade instalada para produzir vacinas, mas a dificuldade de acesso a estes bens”.

O próximo passo poderá passar pela produção através de parcerias, e neste tópico Luís Delgado, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, aponta um ponto de vista diferente de Nuno Vale. Enquanto Luís Delgado aponta uma estratégia global de parceria e partilha de patentes de modo a atingirem um fim comum, “com compensação para as farmacêuticas”, para resolver as dificuldades de produção em massa, Nuno Vale concorda que os “embargos são medidas avulso que não resolvem a situação”, mas que no caso concreto da União Europeia deve seguir um único rumo. Para alem disso, aponta que “a Europa tem de acompanhar os Estados Unidos” e apostar na promoção e incentivo destas parcerias de produção.

Actualmente existem vários acordos estabelecidos entre farmacêuticas com vista ao aumento da produção, como foi o caso da parceria entre a Moderna, a biotecnológica Lonza, a espanhola Rovi e outra empresa belga para conseguirem garantir a capacidade de fabrico, embalamento e distribuição das vacinas. Outro caso foi a francesa Sanofi e a Novartis, que anunciaram acordos para produzir frascos para a Pfizer-BioNTech.

O professor Nuno Vale defende ainda que a entrada da vacina Johnson pode ser o ponto de viragem, por se tratar de uma vacina que só necessita de uma única dose a ser administrada, e como tal, uma cadeia menos complexa, tanto ao nível de abastecimento como de transporte e armazenamento.

Ainda no final de Fevereiro, a farmacêutica fechou um acordo com a Johnson & Johnson, e que este “é um negócio onde ambas as empresas saem a ganhar”, antecipando desde já que as vacinas contra a COVID-19 vêm para ficar, e que mesmo após esta fase mais crítica estas continuem a ser necessárias.

Uma das maneiras que os EUA exploraram como forma de acelerar a produção e distribuição das vacinas foi a autorização por parte da FDA (autoridade reguladora dos medicamentos neste país) de uma maior dosagem dos frascos, passando de 10 doses para 14.

Thierry Breton, comissário europeu para o Mercado Interno, defende ainda a necessidade de criar uma rede para a troca de componentes, monitorização de cadeias produtivas e aposta na colaboração entre públicos e privados. “Precisamos, por um lado, de reforçar as fábricas que já existem, para as ajudar a aumentar a produção, mas também precisamos de chamar novos intervenientes”, explica, referindo ainda a possibilidade de criar “mecanismos governamentais” que permitam que em caso de emergência as fábricas fiquem disponíveis “24 horas, sete dias por semana, caso de repente precisemos de produzir”, tendo como objectivo uma auto-suficiência da Europa nos próximos 12 a 18 meses.

Share This

Partilhar este artigo