O clima seco que se sente no Brasil, o maior produtor de café do mundo, e que poderá levar a uma baixa de produção, conjugado com a escassez de contentores que se sente a nível mundial, poderá levar a uma ruptura no stock deste produto nos próximos meses, tendo inclusive os stocks dos EUA apresentado os níveis mais baixos dos últimos seis anos.

As rupturas no fluxo de cargas foram gerais, ao nível do comércio global de alimentos, mas quanto ao nível do café, a inflacção do preço deste produto – que já está a acontecer – parece estar para se agravar com a reabertura das economias. Neste momento ainda é possível às torrefactoras recorrer aos stocks em vez de aumentarem os preços, mas com as reservas em queda e expectativa de uma colheita dificultada pela seca, as restrições devem persistir.

Devido à situação pela qual o Brasil está a passar, o preço do café arábica, negociado em Nova Iorque, aumentou em 24% desde o final de Outubro. Em Fevereiro, os inventários de grãos verdes não torrados nos EUA caíram 8,3% em relação ao ano anterior, para o mais baixo desde 2015.

Se por um lado o problema se encontra na produção, por outro, no armazém, é visível o impacto da falta de contentores, que impede as empresas de exportar os seus stocks. No caso da Dínamo, uma das maiores operadoras de armazéns de café do Brasil, existe muito produto à espera de contentores para ser enviado. Em Machado (Minas Gerais), os grãos de café aguardam a chegada de 18 contentores vazios para serem enviados, e Luiz Alberto Azevedo Levy Jr., director da Dínamo, comenta que para além da espera, “esses contentores provavelmente levarão cerca de 15 dias a mais para chegar aqui devido ao congestionamento no porto”.

Na Flórida também já se sente este impacto, e Marco Figueiredo, operador e sócio da Ally Coffee, empresa que comercializa cafés especiais, importando grãos de países como a Colômbia, Guatemala e Brasil, comenta que “a logística tem sido uma dor de cabeça devido à falta de espaço e de contentores”. “Estamos a monitorizar a situação e a conversar com os clientes, alertando-os para o aumento dos custos”, acrescenta.

Por agora, muitas empresas procuram evitar o aumento dos preços, enquanto tentam atrair de volta os clientes para os cafés e restaurantes. David Rennie, deputy executive vice-president da Nestlé Global, considera que poderá demorar entre dois e três anos para regressar aos níveis pré-COVID-19.

No caso da rede italiana Diemme, Stefano Martin, gestor de vendas e exportação, comenta que ainda só não sentiram o impacto porque ainda operam com contratos feitos antes de existirem estes problemas logísticos, o que poderá mudar com a renovação de contratos. “Ainda não há impacto do nosso lado, pois fechámos todos os contratos antes do aumento dos preços”, disse. “Mas, provavelmente no próximo lote de contratos, isso será cobrado”.

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