No dia 23-03-2021, o Canal do Suez ficou bloqueado porque um porta-contentores ficou acidentalmente encalhado. A Autoridade Egípcia do Canal, em comunicado, indica que o incidente deveu-se à falta de visibilidade, com ventos de areia na ordem dos 75 Km/h que se faziam sentir no momento do incidente.

Foram realizadas atividades de emergência, inéditas, pelas unidades de regaste com recurso a 8 rebocadores, contudo, apesar dos esforços, a situação não ficou resolvida e o incidente deixa mais de uma centena de navios a aguardar passagem.

O Canal do Suez foi inaugurado em 1869 para garantir a ligação Asia – Europa, são 163 Km que ligam o Mediterrâneo ao Mar Vermelho, de forma a não ter de contornar o continente africano passando pelo Cabo da Boa Esperança e aumentar a viagem em pelo menos mais uma semana.

O Canal é absolutamente estratégico no mercado internacional, é também uma fonte de rendimento assinalável para o Egito, pois em 2020 registou valores na ordem de 5,60 B$ USD, passaram no Canal cerca de 20 mil navios, representa perto de 10% do tráfego marítimo internacional e 50% do petróleo consumido no Mundo.

Se tivermos em linha conta o transporte de petróleo e o oleoduto de Sumed passam pelo canal 2.5 Milhões de barris, diariamente. Existem registos de passagem superiores a 50 navios diários, no entanto o Canal do Suez está a ser alvo de um projeto de desenvolvimento até 2023, de forma a maximizar o potencial, reduzindo o tempo de espera e aumentando o tráfego.

O bloqueio do canal a 23-03-2021, não sendo o primeiro acontecimento deste género (tal já acontecera a 15-07-2018), não deixa de ser o pior dos receios visto que qualquer acontecimento que bloqueie o Canal, ou algum acontecimento que torne o Canal “intransitável”, cria graves problemas ao transporte de mercadorias, petróleo e gás natural. Quando a passagem de todos os navios for concluída teremos um potencial congestionamento dos portos na europa, pois teremos de ter presente que o ETA – Estimated Time of Arrival de todos os navios parados no canal já está a ser ultrapassado, pelo que existirá, inevitavelmente, um pico de atividade nos portos de destino.

Esta situação inusitada irá agravar o problema relacionado com recursos e equipamentos, como sabemos o mercado está ansioso por contentores vazios e existem milhares de contentores vazios nestes navios bloqueados, não será de estranhar se viermos a registar um novo aumento do valor relacionado com os equipamentos.

Este acontecimento fez, novamente, disparar os alarmes da importância geoestratégica da região, bem como a segurança no Canal do Suez, do Mar Vermelho, da Península Arábica e do Corno de Africa.

Djibouti, pode representar uma linha avançada, estratégica e incontornável na responsabilidade de manter a segurança do canal, mas, mais do que isso, neste momento, a responsabilidade em manter a segurança das dezenas e dezenas de navios que estão bloqueados no acesso ao canal, pois os países que estão representados com bases militares em Djibouti (Estados Unidos da América, China, França, Itália, Espanha e Arabia Saudita) têm responsabilidades acrescidas na defesa do comércio internacional.

Henrique Germano Cardador, Analista de Estratégia Empresarial

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