Ao contrário do petróleo, para o qual o barril de Brent, negociado no mercado de Londres, serve de referência para o cálculo do valor de dois terços de todo o crude produzido a nível mundial, o gás natural não tem propriamente um índice. O que ocorre em relação a esta commodity é que os preços são definidos internamente entre as fronteiras de cada país europeu e no resto do mundo por zonas geográficas.

Por exemplo em França, o preço do gás natural está associado em cada momento aos máximos de compra e venda na zona de balanço, o Point d’Exchange de Gas, em Espanha e muito brevemente em Portugal, encontra-se alocado aos preços transacionados no Mibgas e em Inglaterra é o preço no Network Balancing Point, a zona de balanço deste país.

O objetivo desta introdução é explicar um pouco o porquê de um facto indesmentível que aparece muitas vezes nas notícias: O preço do gás natural em Portugal é o mais caro da Europa, sendo o IVA e as respetivas taxas que perfazem o total da fatura apenas uma parte desta justificação.

Se eu quiser trazer gás natural para Portugal, comprando-o, por exemplo em França, irei adquiri-lo na gama dos preços que se pratica nesse país, sendo depois necessário trazê-lo através do gasoduto europeu para território português, começando nesse preciso momento as questões logísticas associadas ao transporte dessas moléculas.

Primeiro terei que tirar o gás de França e colocá-lo em território espanhol, para efetuar esta mudança transfronteiriça serei obrigado a pagar a “portagem” de saída de França e a “portagem” de entrada em Espanha, depois numa segunda fase terei que passar o gás de Espanha para Portugal, e aí, surge a obrigatoriedade de novo ressarcimento, tanto pela saída das moléculas de território espanhol como pela entrada do gás natural em Portugal.

A passagem de gás natural entre quaisquer dois países europeus obriga a um pagamento, tanto na saída como na entrada, pela utilização da respetiva rede de transporte, e isto faz com que, salvo raras exceções, o preço do gás natural vá sempre aumentando dos países de leste, países produtores, para ocidente, países apenas consumidores.

Há que adicionar um facto: O preço da “portagem” de saída do gás natural de qualquer país, é esmagadoramente mais caro que a “portagem de entrada” no mesmo. Isto ocorre por questões de manutenção de reservas estratégias, ou seja, quando um determinado país não é produtor, tende a fazer de tudo para que o gás natural se consuma e se mantenha no próprio país, para salvaguardar qualquer emergência que possa ocorrer.

Estas implicações acabam por se refletir num peso extra nos bolsos do consumidor final, sendo que por Portugal se encontrar no fim da linha do gasoduto europeu, acaba por pagar mais por isso.

Eu dou uma ideia, seria muito mais simples se os operadores europeus se juntassem e aplicassem apenas uma taxa sobre as saídas da rede de transporte que servem os clientes finais do próprio país. Penso que assim o preço do gás natural seria muito mais equitativo, considerando que o custo da manutenção dos gasodutos por quilómetro deverá ser semelhante em todos os países europeus.

Marco Morgado, Supply Chain & Operations Management

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