Um dos efeitos da pandemia foi o inevitável fecho de vários restaurantes, cafés e mercados regionais, o que deixou muitos produtores com mercadoria por vender. Para muitos, a alternativa passou pelo retalho alimentar. Em 2020, as compras à produção nacional realizada por super e hipermercados aumentaram até 28%. O Continente garantiu 206 mil toneladas e investiu 365 milhões de euros, o Lidl as compras subiram 12% em valor, e a Auchan comprou 7451 toneladas. Já no Intermarché investiu-se 264 milhões, mais cinco do que no ano anterior, e o El Corte Inglés comprou mais 8,28%, de acordo com o Dinheiro Vivo.

Com a Páscoa a ser celebrada em casa e os pequenos produtores impedidos de vender, o Governo pediu que o sector ajudasse a escoar os produtos. “Houve resposta do retalho alimentar nacional que, tendo um racional económico, tentou acolher toda a produção nacional que se encontrava em dificuldades. Foi válido para muitos meses, campanhas em vários segmentos, de raças autóctones até às flores”, explica Gonçalo Lobo Xavier, director-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED)

Não se conhecem os números resultantes da compra do agro-alimentar nacional, mas de acordo com o Dinheiro Vivo, houve, de facto, um aumento das compras de bens nacionais. “Em 2020, o Continente comprou 206 mil toneladas de bens aos membros do Clube de Produtores Continente, ou seja mais 28% do que em 2019. São 365 milhões de euros em compras e uma evolução de 22% face ao ano anterior”, adianta Ondina Afonso, presidente do Clube. A cadeia da Sonae trabalha com mais de 240 produtores nacionais, alguns deles recentes. “Para ajudar no escoamento dos produtos e colheitas, em plena fase de emergência nacional, integrámos, em apenas duas semanas, mais de 40 novos membros no Clube”, afirma.

Este foi um reforço transversal ao sector que obrigou novos fornecedores a reagira. Como explica Gonçalo Lobo Xavier “com possibilidade de entrar na distribuição, com as exigência de higiene e segurança alimentar, na rotulagem, nas embalagens, houve uma melhoria dos processos e das exigências que obrigou estas pequenas produções – vocacionadas para horeca e mercados regionais – a investir, muitas vezes em conjunto com a própria distribuição, para poderem entrar nos supers”.

O Pingo Doce passou a vender queijo regional de ovelhas, azeite e vinhos de 30 novos fornecedores, e mais de 100 na área de frutas e legumes. Apesar da cadeia do grupo Jerónimo Martins não ter avançado o valor global das compras nacionais ou a injecção de capital que isso representou na fileira, garante ter reforçado. Segundo a fonte oficial “o Pingo Doce alargou as suas compras aos pequenos produtores regionais portugueses, de forma a contribuir para o escoamento da produção. Reforçámos, assim, o apoio aos produtores nacionais daqueles produtos cujo escoamento foi mais afectado pelo encerramento de hotéis, restaurantes e cafés e pela quebra nas exportações, com especial incidência nas categorias de ovinos e caprinos, vitela e vitelão e bovino da raça Angus, fruta e legumes, peixe fresco, queijo e enchidos, azeite e vinho”.

Já o apoio do Lidl à produção nacional fez com que as compras tivessem aumentado cerca de 12% em valor, em 12 meses, com produtores nacionais a representar cerca de 55% do total de compras. Passaram a trabalhar com seis novos fornecedores de queijo, disponibilizando dez novos produtos nas lojas, de acordo com o administrador de compras do Lidl Portugal, Bruno Pereira. A fechar 2020 a marca lançou o projecto ‘Da Minha Terra’, desafiando produtores nacional a apresentar os seus produtos para serem colocados à venda nas lojas. “Em apenas um mês, esta iniciativa reuniu um total de 180 candidaturas nas áreas da charcutaria, queijos, doces e bolos secos. Seleccionámos cerca de 70 produtores que, por cumprirem os critérios predefinidos e revelarem potencial dos produtos propostos, foram convidados a apresentá-los de forma presencial num formato de pitch”, adianta Bruno Pereira.

Por sua vez, o Intermarché “totalizou um volume de compras de mais de 86 600 toneladas a produtores nacionais, confirma Martinho Lopes, administrador da cadeia Os Mosqueteiros, acrescentado que, em 2020, a aposta da insígnia nas compras a produtores nacionais representou um investimento total de mais de 264 milhões, que corresponde a um incremente de cinco milhões de euros no volume de compras face a 2019. “O peso das compras de produtos nacionais na secção tradicional representa, actualmente, um peso de 56%”, diz ainda o responsável.

A Auchan também reforçou as suas compras nacionais. De acordo com a fonte oficial, no ano passado foram adquiridas mais de 1200 toneladas de produtos frescos a fornecedores nacionais, do que em 2019. “Em 2020, 85% de todas as compras de mercadoria da Auchan Retail Portugal foram realizadas a fornecedores nacionais”, acrescentando ainda que “estamos a falar de perto de 550 fornecedores nacionais, entre os quais mais de 150 locais, pequenos produtores, num raio de proximidade de 50 km, cujas entregas são feitas loja a loja.” Dos 200 produtos de produção controlada, provenientes de mais de 100 fileiras à venda nas lojas, 90% vêm de produtores portugueses.

Por último, no El Corte Inglés, comprou-se mais “”8,28% a fornecedores nacionais, tendo o nosso mercado aumentado 7,44%”, segundo fonte oficial. Compraram a 888 empresas, mais 28 do que em 2019. “Em 2020 a variação do volume de compras foi proporcional ao aumento das vendas, ou seja, superior a dois dígitos”, adianta o diretor-geral da Coviran Portugal, Acácio Santana, – uma subida em volume de compras que se reflectiu na mesma subida superior a dois dígitos em valor. As compras nacionais têm um peso superior a 80%, com a empresa a trabalhar com cerca de 300 fornecedores.

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