No futuro, o supermercado onde se compram os bens essenciais poderá ficar mais perto do que se imagina. Poderá ser no telhado do prédio ou na própria cozinha. Intrigado?

“Assistimos a este boom de kits de produção hidropónica nas cozinhas, que se irão tornar mais populares quando as pessoas perceberem que podem produzir em casa a sua própria comida, sem ocupar muito espaço”, acredita Deborah Dull, especialista em economia circular e cadeias de abastecimento da GE Digital. Segundo a própria, esta é “a cadeia de abastecimento mais curta que podemos ter: a um metro da mesa da sala de jantar temos produtos a crescer. Passa por capacitar as pessoas a produzir a sua própria comida. Torna-se mais atractivo se tivermos em conta a escassez de produtos a que assistimos”, revela através do Dinheiro Vivo.

A pandemia veio evidenciar a complexidade e a fragilidade das cadeias de abastecimento na economia global, tendo fomentado o movimento para uma economia mais circular. A especialista acredita que a maneira como e onde produzimos os bens irá mudar, pois a comida produzida a menos de 50 km de onde é consumida torna-se mais barata do que a produzida longe e depois transportada. “Quando pensamos na forma como as cidades funcionam – até 2050 estima-se que 80% da população mundial viva em cidades – isso tem de mudar”, afirma.

Os sinais já são visíveis nos telhados de Nova Iorque, Paris ou Barcelona, nos prédios verdes com paredes “comestíveis”, ou no boom da agricultura dentro de casa. Há um ano, a dinamarquesa Coop anunciou planos de introduzir quintas verticais em 35 lojas Irma, em colaboração com a alemã Infarm e, em Outubro, a Whole Foods Market anunciou que duas em lojas em Londres iriam ter “quintas” de ervas aromáticas. Um mês antes, a start-up alemã tinha fechado uma linha de investimento de 170 milhões de dólares para financiar a expansão.

Em Portugal ainda há um caminho a percorrer, apesar de mostrar uma capacidade enorme de inovar e responder a estes novos desafios, considera Deolinda Silva, directora executiva da Portugal Foods, acrescentando que “da inovação no desenvolvimento do produto às novas soluções de distribuição e à identificação e desenvolvimento de novas oportunidades de momentos de consumo, são vários os bons exemplos do sector e da indústria que evidenciam esta capacidade. A prova de que está a responder às exigências e às tendências, indo ao encontro daquilo que os mercados e os consumidores querem”.

As refeições em casa aumentaram desde que a pandemia obrigou muitos ao teletrabalho e outros, infelizmente, ao desemprego. De acordo com o EIT food foresight: impact of covid-19 on the food sector in Southern Europe, da Lantern, 38% dos portugueses começaram a trabalhar em casa, o valor mais alto dos países do Sul da Europa, só suplantado pelos 41% de Itália. Desta forma, encomendar comida em serviços de entrega passou a ser habitual: 7% usou pelo menos uma vez, 23% usou mais, 11% menos ou o mesmo, e 59% nunca.

“O modelo de negócio do delivery precisa de uma mudança séria. Neste momento, não é rentável nem para as plataformas nem restaurantes. O problema é o custo da entrega que o consumidor não paga. Se o modelo não resultar, veremos uma maior concentração de plataformas e uma mudança na relação de forças”, diz David Lacasa, da Consultora Lantern, acrescentado que “os restaurantes têm de modificar o seu modelo de negócio para que o delivery seja parte relevante da oferta. Vai ser preciso elaborar uma oferta definida para este canal, com custos adaptados, pacote, etc..” Ou novas marcas e dark kitchens, isto é, cozinhas dedicadas à preparação de refeições para entrega em casa.

O grupo português de restauração SeaMe, dono do Prego da Peixaria, abriu em Janeiro, em Almada, a sua terceira dark kitchen e planeia abrir mais duas “nos próximos dois meses”. Até 2030, a Euromonitor estima que o segmento atinja 1 bilião de dólares.

“Um serviço que vai mudar muito é o da restauração nos centros de trabalho. Estimamos um crescimento de entrega de menus a casa como alternativa. As marcas mais fortes de restauração vão fazer o percurso contrário e desenvolver produtos para vender no super. Da mesma maneira que agora compramos cápsulas de café Starbucks, podemos chegar a ver pratos da Portugália ou de outra marca, prontos para comer, nas prateleiras”, antecipa Lacasa.

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