Quando, numa casa abastecida energeticamente por gás natural, algum morador liga a torneira com o objetivo de ter água quente ou então decide colocar uma panela ao lume para confecionar a sua refeição, não tem a noção de que cada molécula que está naquele momento a ser consumida já fez uma incrível viagem, passando fisicamente por quilómetros e quilómetros de tubagem e igualmente por diversas folhas de cálculo, sempre com o objetivo de no momento necessário essas mesmas moléculas não poderem faltar.

A cadeia de valor do gás natural implica uma verdadeira logística integrada, através da articulação das empresas comercializadoras, fazendo cada uma a respetiva previsão do consumo diário dos seus clientes, com a operadora da rede de transporte, que agrega todos os dados, efetuando o balanceamento físico dentro do gasoduto, garantindo que este não ultrapassa o stock máximo nem desce abaixo do stock mínimo, pois tanto num caso como no outro as implicações de excesso ou perda de pressão podem originar graves problemas no abastecimento aos clientes finais.

A esta logística unicamente efetuada em território português há que adicionar uma grande entreajuda entre os operadores da rede de transporte europeus, que através do operating balancing agreement (OBA), assinado com os respetivos países vizinhos, faz com que todo o gasoduto existente desde Portugal até à Rússia esteja em permanente equilíbrio, e resultando igualmente num facto matematicamente engraçado, em que o valor total do balanço físico do gasoduto em cada país seja diferente da soma agregada dos balanços comerciais das empresas que nele têm gás.

Por último, saliento a imprevisibilidade das previsões, pois quase todos os consumidores, quer domésticos, quer industriais, dão o gás natural como adquirido, existindo uma noção de que basta abrir a torneira que ele estará lá. Este comportamento acaba por trazer dissabores às empresas comercializadoras que por lei são obrigadas a manter os seus stocks comerciais entre determinados níveis, e quando por razões inesperadas e não comunicadas, e como tal não refletidas no forecast diário, uma dada empresa consumidora aumenta ou diminui drasticamente o seu consumo, as implicações podem vir a ser impactantes para a empresa comercializadora, tanto a nível económico como a nível do balanceamento dentro do próprio gasoduto.

Marco Morgado, Supply Chain & Operations Management

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