A época natalícia traz sempre novos desafios à logística e gestão das operações. Será 2020 também atípico desse ponto de vista? Vítor Peliteiro, director de staffing na Randstad Portugal, fala-nos sobre os desafios e as novas tendências das empresas que recorrem ao trabalho temporário para as suas operações de Natal, que é para a maioria um dos seus picos de actividade anual.

Considera que a logística das empresas, tanto do lado da indústria/produção, como por parte dos operadores logísticos, está preparada internamente para responder a uma “operação Natal” tão atípica?

Vítor Peliteiro (VP) –  O facto de ser uma época atípica pelo actual contexto e tendo em conta as medidas do Governo adoptadas agora e sem saber as que serão adoptadas mais perto da época natalícia, não há uma resposta fechada para essa pergunta.

As medidas que têm sido adoptadas acabam por condicionar o volume e os perfis de contratação, assumindo que uma contracção no consumo se irá reflectir numa redução na procura do produto de trabalho temporário.

Os dados que temos actualmente mostram alterações no tipo de perfis, diminuindo os perfis para o retalho, como assistentes de loja, em contraponto com o aumento dos perfis relacionados com o apoio ao e-commerce e cadeia de distribuição, além de eventuais substituições temporárias por quarentena, apoio à família e doença, por exemplo.

A área da logística e das operações é das que sente maior impacto em alturas de picos de actividade, e em que a urgência de fazer chegar o produto certo ao local certo, ao menor custo e no menor tempo possível se agudizam. A vossa experiência confirma-o? E de que forma ajudam as empresas a contornar a situação?

VP: A preocupação das pessoas pela sua saúde e o cumprimento das regras em vigor vai levar a um maior número de pedidos de encomenda para serem entregues em casa ou até em casa de quem queremos dar um presente e não o podemos fazer pessoalmente. O reforço nesse comportamento do consumidor vai certamente impactar toda a área de logística, armazém e distribuição, sem esquecer ainda os serviços de apoio ao cliente não presencial como forma de reforçar as cadeias de abastecimento e melhorar a experiência dos clientes. A Randstad está neste momento já numa fase de apoio ligada à vertente de pessoas, mas também de serviço de atendimento multicanal no sector do retalho, distribuição e os marketplaces que têm vindo a ganhar protagonismo por causa da Black Friday e irá manter a posteriori para o Natal.

Com este aumento no consumo digital, espera-se um ano atípico onde o comércio electrónico está em clara vantagem. No recrutamento sazonal muita coisa irá mudar relativamente a anos anteriores ou as necessidades das empresas deverão manter-se nos mesmos níveis, devido às quebras previstas no consumo físico?

VP: Sim, há funções com menos procura considerando a limitação do número de pessoas em loja. Mas é preciso ao mesmo tempo prepararmos o retalho considerando o risco de absentismos, seja por doença, quarentena ou apoio à família, como referi. Esta preparação exige um planeamento de forma a que tenhamos desde logo perfis identificados para entrada imediata, sob pena de não conseguirmos responder. Em relação ao comércio electrónico é também fundamental olhar para toda a cadeia de valor e preparar a mesma, seja ao nível de armazém, logística e transportes. Só com este redimensionamento e planeamento também no que se relaciona ao absentismo é que podemos ter uma experiência de e-commerce e de loja que não tenha um impacto negativo para as marcas e também para o consumo.

Os consumidores hoje procuram um nível de serviço mais elevado e não estão tão tolerantes a atrasos nas entregas. Relativamente aos novos hábitos, quais são os desafios que as empresas vão ter de estar preparadas para enfrentar e de que forma a experiência da Randstad consegue ajudá-las a responder a essas necessidades específicas?

VP: Os serviços de apoio ao cliente são importantíssimos em qualquer época, quando se realiza uma encomenda e se pretende um esclarecimento ou informação adicional sobre a mesma, seja no Natal, Black Friday, ou em qualquer outra altura do ano. Se numa primeira fase da pandemia o consumidor foi mais tolerante com atrasos de encomendas e falta de informação sobre as mesmas, devido às restrições estabelecidas e também aos ajustes que as empresas fizeram numa fase inicial, agora a expectativa de uma experiência que se traduza em 100% de satisfação é muito maior e a exigência também está em níveis mais altos.

As empresas terão de entender que é importante avançar para um reforço dos recursos humanos em áreas específicas, para que mesmo em situações em que acontecem imprevistos, o cliente possa sempre ter um contacto disponível, seja qual for a plataforma de comunicação, como forma de garantir que a empresa tem os recursos necessários para analisar e ajudar a solucionar qualquer questão.

Fala-se muito num “novo normal”. O que é que a pandemia mudou ou está a fazer mudar na vossa actividade?

VP: Mantivemos o nosso propósito com a sociedade de moldar o mundo do trabalho, aproximando a oferta e a procura no mercado, desenvolvendo novas soluções de Recursos Humanos e fornecendo valor à sociedade como um todo. Um exemplo? Anunciámos há pouco tempo que pretendemos contratar até ao final do ano 1.000 profissionais para diversas áreas, como apoio ao cliente, seja para suporte através de linha telefónica, redes sociais, web-chat, loja e email, bem como suporte ao e-commerce, entre outras.

Temos um serviço para identificar perfis críticos de empresas para responder às necessidades de substituição. Esta identificação não tem qualquer custo e funciona como se fosse um seguro para a empresa que, caso necessite, pode imediatamente pedir a integração de uma pessoa, não colocando em causa a continuidade do negócio.

Depois também estamos cada vez mais presentes para quem procura recomeçar ou relançar a sua vida activa a nível profissional. Criámos a campanha #EverydayHero, que pretende apoiar, de forma gratuita, os candidatos através da partilha de informação, de recomendações e do esclarecimento de dúvidas, com três acções concretas: um grupo de WhatsApp, um podcast e ainda uma newsletter.

Desenvolvemos a app myRandstad que desempenha um papel fundamental no apoio a quem quer encontrar o trabalho que mais se ajusta ao seu perfil, onde uma equipa de especialistas da Randstad cruza os perfis de quem está à procura de trabalho com as empresas que estão a recrutar e os candidatos inscritos na app recebem um alerta através da mesma, sempre que existir uma vaga que corresponda ao seu perfil. A aplicação permite que o processo de procura e oferta de trabalho se torne mais ágil, eficaz e seguro.

E, por fim, a YouPlan, uma solução tecnológica que permite gerir horários com a criação de escalas para os colaboradores e ainda com a possibilidade de comunicação, tudo através de uma forma rápida, simples e intuitiva. Tratou-se da resposta à necessidade sentida por muitas empresas que, devido às medidas impostas, se viram forçadas a mudarem o seu plano de funcionamento. Esta aplicação trata-se de uma ferramenta única de gestão, que permite comunicar de forma imediata e a qualquer hora com os colaboradores, bem como gerir escalas, planear turnos, propor horas extra e registos de horas.

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