O primeiro dos dois dias da Procurement Digital Conference, evento promovido pela Supply Chain Magazine, deu destaque ao tema “Tempos difíceis, pessoas extraordinárias”, procurando assim dar destaque ao papel das pessoas dentro das organizações, e a importância que estas têm para superar os desafios das empresas, especialmente no caso da pandemia que todos enfrentamos.

O painel foi composto por Miguel Nuno Silva, senior consultant SCM, Logistics, Procurement, Pedro Caldeira, professor na NOVA School of Business & Economics, Ivo Diz, head of procurement no Grupo Ageas Portugal, e Isabel Santos, head of procurement department na SOGRAPE Original Legacy Wines.

Isabel Santos comenta que em Março a prioridade da Sogrape foi salvaguardar a saúde das pessoas. Para os que puderam manter um regime de teletrabalho, “a principal preocupação foi dotar as pessoas dos recursos necessários para executar as suas funções, manter a relação com as equipas, o contacto com fornecedores e assegurar que a estrutura mantinha todas as suas responsabilidades”, explica a responsável. No caso dos processos que iam desde a vinha ao engarrafamento, não sendo aplicável esta medida, forneceram outro tipo de medidas de segurança, como EPIs ou turnos desfasados. Foi ainda criada uma equipa de gestão de crise para acompanhar e garantir que se minimizavam os riscos.

Ao nível do teletrabalho, Pedro Caldeira destaca algumas das skills necessárias para os colaboradores enfrentarem este cenário: capacidade de trabalhar sob pressão, pensamento crítico, resolução de problemas complexos e flexibilidade cognitiva. Reconhece, no entanto, que “estamos a viver momentos distintos. Neste momento estamos a trabalhar competências mais estratégicas, a reanalisar processos e sistemas, para aproveitar o momento para pôr em prática o redesenhado de soluções estruturantes na área do procurement e supply chain”.

“De um momento para o outro sentimos que toda a gente estava à procura da mesma coisa: EPIs, laptops para colocar toda a gente em teletrabalho, negociar com as empresas de limpeza, ou com empresas de serviço para adequar os serviço à nova realidade, etc.”, recorda Ivo Diz, e defende que foi necessário ter uma capacidade de resiliência e utilizar as skills referidas por Pedro Caldeira de modo a superar os desafios desta nova realidade. “Também tomámos partido de pertencer a um grupo internacional e conseguimos ter melhores condições, isto é, prazos de entrega mais adequados para necessidades urgentes, mas muito se baseou nas relações humanas que temos com os nossos parceiros e internamente”, explica.

Pegando no mote deixado por Ivo Diz, Miguel Nuno Silva questiona Isabel Santos relativamente às medidas adoptadas ao nível da comunicação com os fornecedores e reforço de parcerias, e esta revela que “numa primeira fase deparámo-nos com alguns problemas e foi necessário garantir que os abastecimentos estavam assegurados. Tentámos apoiar os nossos fornecedores, perceber, por um lado, se eram problemas de fluxo de caixa, ou problemas relacionados com a obtenção de matéria prima, e no que foi possível tentámos dar esse suporte”. Internamente, optaram por reforçar os stocks de segurança, superar problemas de escassez, resultado do aumento da procura, e procurar fornecedores alternativos aos internacionais, para o caso de estes chegarem ao ponto de não conseguirem abastecer. “Temos explorado a parceria ao máximo até na questão de contratarmos a longo prazo, o que acaba por ser mais benéfico também para eles. Temos olhado para toda a cadeia para melhorarmos para eles e para nós”, explica.

Pedro Caldeira sentiu que houve três tipos de intervenção na cadeia de abastecimento: a curto, médio e longo prazo:
– “As de curto prazo actuaram, essencialmente, sobre a operação, a contenção da propagação, a gestão das equipas e dos turnos, a gestão de rupturas, dos atrasos”;
– “Ao nível das intervenções de médio prazo: adaptar a logística e as novas variáveis aos cenários identificados, recorreu-se muito aos modelos colaborativos”;
– “E a terceira fase, que eu diria que é a que nós hoje temos de estar já a viver: o desenvolvimento de acções de longo prazo”.

“Não identifico, nestes últimos anos, maior acelerador tecnológico do que aquilo que aconteceu este ano”, conclui Pedro Caldeira.

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