Se havia dúvidas, estas dissiparam-se e no primeiro semestre de 2020 ficou bem patente a importância crucial de uma cadeia de abastecimento no sector da saúde que funcione bem. Mas também revelou muitas das deficiências existentes e evidenciou os elos fracos dessa mesma cadeia. Embora a aquisição, transporte e distribuição dos EPI tenha representado um dos maiores desafios logísticos a que já assistimos, vem aí uma operação muito maior e mais complexa: a das vacinas.

30 dias. É este o período de tempo que a task force criada pelo governo para a elaboração do «Plano de vacinação contra a Covid-19 em Portugal» tem para produzir documentos que reflictam a estratégia de vacinação contra a Covid-19, como a definição dos grupos prioritários; o plano logístico; o plano de segurança do armazenamento e distribuição das vacinas; o plano de administração das mesmas; o plano de registo e monitorização clínica da sua administração; o plano de comunicação aos cidadãos; bem como todas as iniciativas normativas consideradas necessárias. A task force deverá ainda articular com os organismos responsáveis nas Regiões Autónomas todos os aspectos necessários à concretização do plano de vacinação contra a Covid-19 na Madeira e nos Açores. De sublinhar que o mandato da task force tem a duração de seis meses, renovável em função do progresso da operacionalização da vacinação contra a Covid-19.

Coordenado por Francisco Ramos, o grupo de trabalho integra representantes do Ministério da Defesa Nacional, do Ministério da Administração Interna, da Direcção-Geral da Saúde e da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed). O Estado-Maior-General das Forças Armadas, a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, a Administração Central do Sistema de Saúde, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde e o Serviço de Utilização Comum dos Hospitais são as entidades de apoio técnico. Embora o coração de toda esta operação seja planeamento logístico e gestão da cadeia de abastecimento, o “núcleo duro” não integra qualquer entidade, organismo ou profissionais da área.

 

“Sem conhecimento nada se faz”

A este propósito, a direcção da APAT salienta que logo aquando da primeira vaga alertou para a tarefa hercúlea que seria transportar, armazenar, codificar, distribuir e entregar a vacina, quando ela existisse: “Sem conhecimento nada se faz, nada se realiza e nada se concretiza. E, esta falta de conhecimento do que vai acontecer é angustiante, mais uma vez, prevemos que vai ser à última hora que vamos resolver”, frisa a Associação dos Transitários que, na altura, alertou para a necessidade de criar “um grupo de trabalho para estudar, planear e programar toda esta logística. Identificar armazéns de frio, transportadores de frio, que fluxos logísticos utilizar, que cadeias de abastecimento seriam necessárias, etc., mas nada foi feito. Ninguém foi contactado e, passaram sete meses”.

 

“O valor das vacinas ultrapassa em larga escala o valor daqueles equipamentos (EPI). É nosso entendimento que um mau planeamento retardará ainda mais e poderá redundar em eventuais problemas sérios e complicados nos países onde venham a fazer trânsito”.

Direcção da APAT

 

Ainda assim, o despacho que cria a task force prevê que a mesma possa promover a audição de organismos relevantes, como associações públicas profissionais e que sempre que o entenda possa solicitar o apoio de outros peritos ou de outras instituições para o desenvolvimento dos trabalhos a realizar.

A APAT mostra-se disponível para ser parceira na solução, visto que os transitários “estão em todo o lado, em Portugal e em todo o mundo” e têm “experiência na logística internacional”, como ficou bem demonstrado aquando da primeira vaga, com os abastecimentos de EPI e ventiladores. Na altura, foram vários os carregamentos que ficaram retidos noutros países alegadamente por questões aduaneiras”. Esta situação pode repetir-se já que, como lembra a mesma entidade, “o valor das vacinas ultrapassa em larga escala o valor daqueles equipamentos. É nosso entendimento que um mau planeamento retardará ainda mais e poderá redundar em eventuais problemas sérios e complicados nos países onde venham a fazer trânsito”.

Nuno Rangel, presidente da direcção da Associação Portuguesa de Operadores Logísticos (APOL) diz que “ainda existe muito pouca informação concreta  e dados disponíveis para podermos no momento expressar a nossa opinião técnica sobre futuras soluções. Esta operação, pela sua especificidade e dimensão, acarreta diversos desafios que interessa detalhar para se poder estudar a melhor forma de os ultrapassar”. Ainda assim, o representante dos operadores logísticos lembra que “o sector da logística em Portugal está  a um nível altíssimo, no que diz respeito a capacidade técnica para poder responder a um desafio deste tipo. Dada a pertinência e importância, a APOL está a acompanhar o desenvolvimento do tema de perto e estamos disponíveis para apoiar e ajudar no que for necessário”.

Luis Ferreira, professor auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e especialista em gestão de risco, explica que o plano é uma operação de elevada complexidade, com grandes riscos e custos associados. “Seja pelo lado da “oferta” nas questões relacionadas com a conservação das vacinas (um aspecto mais crítico segundo parece num dos casos), seja pela escolha dos pontos de vacinação (que por sinal vão ser os centros de saúde), ou pela adequada gestão dos inventários nos pontos de vacinação, entre outros aspectos; seja pelo lado da “procura” na medida em que as pessoas podem não querer ser vacinadas e/ou não comparecerem para a vacinação. Para além da necessidade de ser feito o controlo de quem e quando tomou (que vai ser muito importante!); já para não falar em questões de segurança, desvios, contrafacção e monitorização de uma operação desta envergadura (que vai prolongar-se ao longo de vários meses)”.

 

“O sector da logística em Portugal está  a um nível altíssimo, no que diz respeito a capacidade técnica para poder responder a um desafio deste tipo.”

Nuno Rangel, presidente | APOL

 

Este ponto de vista é corroborado por José Crespo de Carvalho, professor do ISCTE, especialista em logística e gestão da cadeia de abastecimento e que defende que deve ser dada especial atenção a aspectos como a continuidade da cadeia de frio, traçabilidade e rastreabilidade, centralização e domínio sobre a procura.

 

“Centralizar será uma das chaves”
Segundo o mesmo, “traçabilidade/rastreabilidade porque se tem de saber em cada momento para onde foi uma dose da vacina e ficar com os dados de onde, a que horas foi administrada e a quem (eventuais efeitos secundários só assim são monitorizados como deve ser)”, o que vai exigir sistemas de informação à altura. A já tão falada questão das temperaturas, que como nos explica Crespo de Carvalho implica “continuidade, pois não é expectável que haja interrupções nas cadeias de frio, porque comprometeria o efeito do produto e/ou geraria mutações no mesmo, podendo perder-se o seu efeito”. No que diz respeito ao armazenamento e movimentação das futuras vacinas, este académico aponta a necessidade de existir um “centralização física com movimentos pendulares entre o centro e os locais de administração, pois os locais de administração terão de ter condições de armazenagem a temperaturas de -80º C, o que não é simples. Como se sabe há alguns truques que se fazem para manter as temperaturas deste gelo seco, mas isso é para produtos com os quais podemos brincar: fumos de bebidas em bares, por exemplo, feitas com gelos secos”. No seu entender, “o exemplo a seguir é o que já se faz com órgãos humanos.”
Sublinha, contudo, a importância de existir um ponto central a partir do qual são abastecidos os locais de administração, havendo reabastecimentos diários ou semanais: “pensar num processo descentralizado será um erro na minha opinião. Sobretudo porque não existe boa comunicação e sistemas de informação a nível local para manter um sistema destes em bom funcionamento. Portanto, centralizar será uma das chaves do processo”.
“A existência de uma cadeia de comando, com uma hierarquia bem definida, parece-me ser muito importante para que depois tudo funcione bem”
Luis Ferreira, professor | Univ. Coimbra
Em todo o plano, será determinante definir um plano de comunicação com a população sobre a vacinação contra a Covid-19, “tendo em vista a disponibilização de informação, de forma objectiva, clara e transparente sobre o processo”, refere o despacho já mencionado, algo que será determinante para o que o professor do ISCTE designa como disciplinar a procura. “Talvez possamos entender que este não é um grande problema, mas se estamos perante uma questão central de saúde e vida humana é natural que se formem filas à espera da vacina por utentes considerados nos targets”, sublinha. Daí a importância de “uma boa definição dos targets”, a par de “uma belíssima comunicação com os mesmos (pré-agendamento, pré-marcação por slots…), caso contrário, a formação de filas de espera em locais de administração da vacina torna o processo caótico. Deve existir uma pré-marcação com slots de atendimento de meias horas ou horas para que a capacidade instalada de administração não esgote rapidamente e não se formem filas de espera”, o que a acontecer, seria desastroso e poderia comprometer as melhores condições de administração”.
“Pensar num processo descentralizado será um erro na minha opinião. Sobretudo porque não existe boa comunicação e sistemas de informação a nível local para manter um sistema destes em bom funcionamento. Portanto, centralizar será uma das chaves do processo”.
José Crespo de Carvalho, professor | ISCTE

No caso de Portugal segundo avançou o primeiro-ministro, “relativamente a três das vacinas, já estão definidas as doses a comprar: numa 6,9 milhões, em outra 4,6 milhões e, na terceira, 4,5 milhões”, tendo ainda adiantado que Bruxelas prepara um combate às campanhas de desinformação em relação à vacinação e que as vacinas serão distribuídas simultaneamente em todos os Estados-membros e nas mesmas condições.

Tanto Luis Ferreira como José Crespo de Carvalho mostram-se confiantes em relação à Comissão Técnica de Vacinação COVID, querendo ambos acreditar que está a ser montada uma task force capaz e preparada para desenhar uma estratégia logística e para fazer o adequado deployment da mesma: “a existência de uma cadeia de comando, com uma hierarquia bem definida, parece-me ser muito importante para que depois tudo funcione bem.”, frisa Luis Ferreira.
Notícia actualizada a 01/12/2020

 

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