No final do passado dia 12 de Novembro, quinta-feira, António Costa anunciou novas medidas para os dois seguintes fins-de-semana (14 e 15 / 20 e 21 de Novembro), que envolviam o fecho de espaços comerciais entre as 13 horas dos respectivos dias e as 8 horas do dia seguinte nos concelhos de risco. O inesperado anúncio teve um forte impacto nas empresas, pois todo o planeamento para os dias seguintes teve de ser repensado e envolveu tentar antecipar a movimentação das pessoas para as lojas.

Ana Lúcia Barbosa, supply chain director – Fresh Food da Sonae MC, conta-nos que assim que foram conhecidas as medidas houve uma comunicação por parte da empresa a confirmar o fecho das lojas abrangidas a partir das 13 horas, o que corresponde a cerca de 80% das lojas do grupo. “A equipa reuniu-se de imediato, nessa mesma noite, numa óptica de avaliar impactos, principais dificuldades e soluções”, comenta a responsável.

A preparação começou ainda no próprio dia, e esperavam “uma sexta-feira acima do normal”, com uma grande movimentação de pessoas às lojas, “um fim-de-semana afectado negativamente” e “um arranque de semana muito elevado”, novamente com grandes movimentações em loja devido à falta de procura do fim-de-semana, esperando-se um aumento na procura dos frescos, explica Ana Lúcia Barbosa.

“As nossas previsões apontavam para uma necessidade diferente, para dar resposta a uma compra de acordo com a sazonalidade criada pelas mesmas. O desafio que tínhamos pela frente era ajustar esta nova previsão apenas às lojas impactadas” – Ana Lúcia Barbosa

“A procura foi realmente muito elevada na sexta feira, afectada pela limitação do fecho às 13h no fim de semana, e o arranque de semana foi mais forte que o normal. Durante a semana levou-nos a um acompanhamento mais intenso do que ia acontecendo, de forma a que pudéssemos ir ajustando a oferta à procura, mantendo a máxima frescura“, comenta ainda a responsável.

A principal preocupação era a de “garantir a continuidade das premissas fundamentais que trabalhamos diariamente”:
(1) Resposta ágil ao cliente, pois o dia seguinte seria afectado positivamente em vendas, para quem antecipasse compras;
(2) Máxima frescura e qualidade, garantindo que os produtos tinham apenas a cobertura necessária para as vendas do dia, obrigando a recálculo de necessidades nessa noite e alteração a planos de produção e entregas;
(3) Evitar o desperdício alimentar, sendo produtos frescos e tendo uma elevada perecibilidade era crítico reagir aos stocks já em loja (considerado para um volume de fim de semana) e solucionar a montante o equilíbrio das matérias-primas, evitando overstock.

“A maior urgência e a solução táctica adoptada foi perceber quais as lojas abrangidas pelos concelhos afectados, que stock e que necessidades havia em cada uma dessas lojas, e reagir de imediato na nova previsão da procura, antecipando e garantindo as premissas explicadas acima”, acrescenta Ana Lúcia Barbosa.

Um dos grandes impactos sentidos foi no caso particular da carne, “onde a Sonae MC conta com um centro de processamento próprio, cuja gestão da cadeia de abastecimento é feita pela mesma equipa end-to-end”, envolvendo desde os fornecedores de matéria-prima até à gestão de stocks central das lojas, o que lhes permitiu ter “uma maior visibilidade por toda a cadeia e por conseguinte uma direcção de onde deveríamos actuar de forma mais incisiva”.

“Em termos práticos, para conseguirmos uma resposta célere com frescura, o produto que estava em loja na quinta-feira tinha de garantir as vendas desse dia e de sexta, quando temos um anúncio desta dimensão de medidas, a procura torna-se exponencial e aquilo que era uma cobertura ideal de stocks passa a gerar ruptura”, explica a responsável, acrescentando que os impactos sentidos no centro de processamento foram semelhantes, visto que já tinham comprado a matéria-prima para o fim-de-semana, “garantindo uma produção just in time na sexta para a frescura máxima”.

Ao nível dos fornecedores de matérias-primas foi necessário fazerem um ajuste nas compras, que por serem nacionais, conseguiram obter uma resposta positiva em 24 horas, bem como rever todo o plano produtivo, mudando algumas das matérias-primas para outros produtos finais, de forma a garantir um maior volume de resposta.

“Foi necessário reagir, loja a loja, para ajustar as novas quantidades ao que era a procura esperada”, explica Ana Lúcia Barbosa, “utilizando para isso uma priorização de entregas, um reajuste de encomendas e uma preparação extra de entrega”.

Relativamente à segunda semana, as medidas foram semelhantes, mas com ligeiras alterações no que tocou à procura, com ajuda de uma análise ao sentido na primeira semana. “Houve uma mudança no padrão de compra, as pessoas procuraram mais os frescos durante a semana, deram prioridade às lojas de conveniência e o peso dos produtos embalados aumentou. Estes novos indicadores permitiram reajustar para a 2ª semana”, explicou a responsável. Ainda durante este segundo fim-de-semana houve o anúncio de um aumento das medidas para os próximos fins-de-semana, com a notícia de novas proibições de circulação entre concelhos, englobando já os feriados de dia 1 e 8 de Dezembro. “Este sim, terá uma gestão diferente. Estas novas medidas englobam quatro dias de impacto, ao invés de dois”, comenta.

“Com este movimento ágil, conseguimos garantir que não houvesse o que mais se poderia temer nesta área, pelo desbalancear da procura – Rupturas e/ ou desperdício alimentar” – Ana Lúcia Barbosa

Confrontada sobre quais seriam agora as maiores dificuldades a superar, Ana Lúcia Barbosa considera que é “conseguir antecipar todos os movimentos de compra”, e perceber “se o cliente vai optar por comprar na semana ou no fim-de-semana, se prefere comprar com mais frequência e menos quantidade ou se prefere ir poucas vezes ao espaço comercial e comprar mais, se prefere a conveniência ou o hiper, se vai haver deslocações do litoral para o interior, se há concelhos com medidas restritivas que levem a uma alteração mais profunda da procura e se eventualmente teremos alterações à própria tipologia de produtos que o consumidor procura – menores porções, artigos de confecção mais rápida, etc.”.

“Estas novas medidas, mais apertadas, vieram trazer uma ainda maior volatilidade da procura desafiando os nossos eixos fundamentais de máxima frescura e qualidade”, conclui a responsável.

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