O conceito de market intelligence baseia-se no conhecimento total do mercado. Aposta no conhecimento dos dados do mercado, do produto, dos concorrentes e dos dados internos de cada empresa. Ou seja, numa verdadeira visão 360º do negócio. 

Esta é uma das tendências mais populares de negócio ultimamente que, contudo, parte de um princípio fundamental: a existência de dados. Mais do que a existência, o conhecimento destes dados.

No campo teórico, se uma empresa conhecer as tendências de mercado, os concorrentes, os seus clientes, todo o processo de tomada de decisões passa a ser fundamentado. Torna-se assim mais fácil elaborar estratégias de mercado e objetivos. 

Contudo, estas abordagens ou conceitos são o exemplo típico do que funciona na perfeição numa perspetiva académica ou macroeconómica, para grandes empresas, mas que tende a ser algo impraticável para PME’s. A falta de estrutura de recolha de dados, a falta de dados de mercado, a falta de acesso e falta de capacidade de investimento da maioria das PME’s torna o acesso a estes conceitos algo quase utópico.

Se analisarmos da perspetiva do volume de negócios gerado pelas PME’s, falamos então de cerca de 60% do volume de negócios gerado em Portugal (dados IAPMEI 2017). Ou seja, para a vasta maioria das empresas em Portugal, estes conceitos são situações puramente teóricas, nunca executáveis.

Assim, a vasta maioria do nosso tecido empresarial, parte a partida em desvantagem. Principalmente quando comparado com outras empresas europeias da mesma dimensão, onde a analise de dados do mercado, clientes e concorrentes e a base de criação de negócio.

A solução passa pela desmistificação e simplificação. Começar pequeno, mas começar. 

A maioria das PME’s não faz recolha sistematizada de dados ou assume não ter volume suficiente para poder gerar um sistema. Nem sempre volume de dados significa qualidade e neste caso, especialmente num sistema desenhado de raiz especificamente para isso, os dados recolhidos pelas PMEs tornam-se extremamente ricos e impactantes. 

Qualquer empresa, independentemente do tamanho e orçamento, pode fazer a sua recolha e analise, baseado no seu contexto. Por exemplo, qualquer feedback de cliente pode ser visto como market research. Até uma conversa informal, sem ser necessário um sistema formal de recolha. Guardar estes dados, dar-lhes volume, torna possível obter a imagem da empresa no mercado. A forma como os clientes nos vêem. 

Internamente, analisar stocks, perceber tendências, torna-se essencial. Olhar para os dados e antecipar encomendas, antecipar afluências. Com um bom conhecimento interno, podemos até calcular o impacto do negócio dos concorrentes no nosso negócio. Ver o impacto de decisões de negócio. Ou seja, olhar para dentro, permite ver também melhor o que se passa fora. Ajustar estratégias.

Grande parte dos gestores acha que a dimensão do seu negócio não justifica esse investimento. Coloca-se então a questão:  quantas vezes se encomendou em excesso, por não se ter real conhecimento da procura? Quantas vezes, por falta de espaço de armazenamento, não se encomendou o artigo que realmente era procurado? Quantas oportunidades de negócio se perderam? Este exemplo, de solução bem fácil, com um sistema básico de previsão, tem custo de execução baixo e impacto no negócio bastante significativo. 

A introdução de sistemas de recolha, análise e monitorização de dados em PME’s torna-se mais eficaz e com maior impacto percentual no negócio, do que em grandes empresas. O exemplo do impacto destes sistemas em PME’s e claramente um caso onde o pouco (volume de dados) se torna em muito (impacto no negócio).

João Fialho, PhD | Chief Scientific Officer | Datauris

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