Com tantas incertezas e imprevisibilidades na actual conjuntura social, económica, e sanitária, eis que a pouco e pouco muitos começam a regressar ao local físico de trabalho. Se é certo que as equipas operacionais (fábricas, hospitais, centros de saúde, de distribuição, retalho, transportes, entre muitos outros) nunca saíram do terreno, devido à natureza das suas funções (os novos “heróis” aos quais ficamos eternamente agradecidos), assistimos agora à tentativa do regresso à normalidade, ou melhor, à adaptação ao “novo normal”, em que as empresas preparam o regresso aos seus espaços físicos.

São, de facto, períodos conturbados e de grande instabilidade, em que as empresas podem aproveitar para fazer uma introspecção a fundo do seu negócio, visão e estratégia para o futuro mais próximo, reajustando o seu modus operandi.

Deste modo, este momento pode constituir uma boa oportunidade para:

  • “congelar” históricos de vendas/consumos (em sectores onde se verificou uma quebra do volume de negócios, para não “deturpar” previsões futuras) e actualizar forecasts e tendências, de forma a alinhar recursos e encomendas aos volumes previstos;
  • reajustar custos fixos e variáveis, analisando e ponderando a adopção de uma estrutura de custos mais flexível (convertendo alguns custos fixos em variáveis), de forma a libertar cash-flow e permitir uma adaptação mais ágil às incertezas dos próximos meses;
  • apostar numa descentralização do Procurement, avaliando a base de fornecedores e seleccionando fornecedores mais locais (obviamente dependendo da dimensão/exposição internacional da empresa), não só pela crescente adopção de políticas proteccionistas dos mercados locais (que, inevitavelmente, irão surgir), mas também, de forma a reduzir o risco, e a aumentar a capacidade de resposta a imprevistos (se, por um lado, o custo da opção local pode parecer economicamente menos vantajosa, também não convém esquecer os ganhos que advêm de um menor lead time de entrega, o que se traduz numa redução do stock de segurança e consequente redução do capital imobilizado em inventário);
  • implementar um Plano de Continuidade de Negócio (Business Continuity Plan), onde estejam identificados os principais riscos do negócio e respectivos planos de contingência (ex. identificação de fornecedores alternativos, estratégias de duplo fornecimento para produtos mais críticos, levantamento dos Planos de Continuidade de Negócio dos principais fornecedores);
  • acelerar o investimento na digitalização e E-commerce, diversificando os pontos de contacto com os clientes, abrindo novos canais de venda, e como forma de captar novos clientes;
  • investir na tecnologia que mais se adeque ao negócio, de forma a dotar a empresa de uma maior capacidade de resposta, e que permita, inclusive, antecipar e prever tendências e realidades futuras (IA, IoT, Advanced and Predictive analytics, entre outras);
  • repensar a estratégia de liderança, onde se deva privilegiar a vertente pessoal, antes da profissional. Para muitos, antes da ansiedade com o futuro da sua situação laboral, veio o receio pela sua saúde, e antes da realização do trabalho, veio a adaptação a novas formas de trabalhar, o que leva a que a nova liderança deva estar cada vez mais centrada na vertente pessoal;
  • analisar e ponderar as possíveis vantagens (e desvantagens) do teletrabalho para a empresa e seus colaboradores, para as funções/áreas que, devido à sua natureza, mais facilmente podem transitar para esta realidade, nomeadamente, a nível de:
    • redução de custos com instalações e infra-estruturas (ex. arrendamentos, água, gás, electricidade, ar condicionado, consumíveis, etc.);
    • acesso mais facilitado a candidatos com talento para zonas mais distantes;
    • aumento do nível de satisfação pessoal e profissional (maior flexibilidade, ausência de tempos de deslocação com prováveis ganhos de eficiência, maior work-life balance) e consequente redução da taxa de rotação na empresa e maior produtividade;
    • redução das emissões de CO2 e consequente contributo para uma pegada mais ecológica, de forma a garantir a sustentabilidade do Planeta.

Vivemos agora um momento de transição, caracterizado por imensos desafios, mas também por oportunidades, onde é importante que as organizações assumam como uma prioridade estratégica sistemas organizacionais mais descentralizados que permitam responder de forma mais ágil às necessidades de mercado, assim como às oportunidades e riscos emergentes, e onde se incentivem o desenvolvimento de novas competências de liderança que permitam uma gestão mais personalizada e mais focada nas necessidades pessoais e individuais, que possibilite ter as pessoas certas, no lugar certo, e que se consigam adaptar com facilidade, mantendo um elevado nível de performance em qualquer contexto.

Bruno Gil, Iberian Supply Chain Manager | Eden Springs

 

 

 

 

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