A pandemia veio trazer novos obstáculos e necessidades ao setor da logística. Por outro lado, muitas foram as oportunidades que surgiram, tal como o crescimento acentuado do comércio eletrónico, provocado pelo confinamento, que veio reforçar o
volume de entregas, e a implementação de soluções tecnológicas que tornaram os processos mais eficazes e flexíveis.

Atualmente, são enviadas cada vez menos cartas – tendência que já se verificava antes da pandemia – e cada vez mais encomendas, sendo que mais de metade dos portugueses fazem compras online frequentemente, o que veio tornar as caixas de correio mais obsoletas, sem espaço para a maioria das embalagens. Tornou-se, assim, necessário encontrar um sistema mais completo e prático, que facilitasse a troca de bens e satisfizesse as exigências dos consumidores.

Entre as diversas tecnologias que prometem trazer maior eficiência ao processo de entregas, surgem os cacifos inteligentes, que procuram otimizar a última fase de entrega, na qual residem 30 a 60% dos custos da operação. Estes elevados custos têm duas causas principais. Atualmente, o estafeta, de forma a entregar várias encomendas, necessita de fazer inúmeras paragens. No entanto, existe a possibilidade de não estar ninguém no destino da encomenda para fazer a sua receção, algo que acontece cerca de 1 milhão de vezes ao ano, só nos CTT, e que pode levar a uma segunda viagem, ou implicar um maior transtorno para o consumidor, que tem de se deslocar ao ponto de recolha, com horários definidos e nem sempre acessíveis. Estes dois problemas obrigam o estafeta a deslocar-se mais do que o necessário, num gasto maior de tempo e de recursos. No entanto, ambos podem ser mitigados, através do uso de cacifos inteligentes, que dispõem de dezenas de compartimentos, acessíveis ao consumidor, e onde é possível deixarem-se várias encomendas de uma só vez.

Esta solução, que está a ser implementada em todo o mundo, é já considerada uma infraestrutura básica em alguns países asiáticos. Neste cenário, a China é o maior exemplo de sucesso, tendo já instalado mais de 800 mil cacifos. No Ocidente, esta solução cresce de dia para dia, sendo que acreditamos que pode trazer benefícios a toda a atividade logística, à vida do utilizador final, mas também, de uma forma mais global, à sociedade e ao funcionamento das próprias cidades.

As empresas de logística são as que mais têm a ganhar com a sua aplicação, uma vez que a adoção desta infraestrutura permite reduzir o número de viagens e de encomendas não entregues. Se passarem a depositar em cacifos inteligentes, o
estafeta fará apenas uma viagem, independentemente do número de encomendas, o que aumentará a sua produtividade e diminuirá o consumo de combustível e a necessidade de manutenção dos veículos. Esta alternativa acaba por ser também vantajosa para o utilizador, na medida em que os cacifos apresentam-se como uma opção mais acessível, ao reduzirem ou eliminarem taxas de entrega e estarem sempre disponíveis para receber encomendas. A isto, junta-se a salvaguarda da sua
segurança, uma vez que não existe qualquer contacto com a pessoa que entrega a compra. Se quiser devolver a encomenda, basta voltar a depositá-la no cacifo e notificar o lojista.

Na realidade, os cacifos inteligentes podem ter consequências positivas na sociedade e no funcionamento das cidades, ao contribuírem para que se tornem cada vez mais inteligentes. Esta solução traz, por exemplo, menos trânsito automóvel, já que se dá a redução do trajeto de entrega, o que reduz as emissões de CO2, melhora a eficácia nas operações urbanas, o desenvolvimento económico das cidades e torna-as mais sustentáveis.

Considerando o mercado globalizado, as necessidades atuais, o ritmo urbano e a tendência para se oferecerem serviços cada vez mais integrados, é previsível que esta seja uma solução cada vez mais a ter em conta pelos consumidores e pelas
empresas, que devem agora adaptar-se à atual transformação digital. Esta e outras tecnologias podem permitir aos lojistas enfrentarem os desafios que a pandemia lhes veio trazer e outros que ainda surgirão, trabalhando para o desenvolvimento
do seu negócio a longo prazo.

Ricardo Carvalho, Cofundador da Bloq.it

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