As empresas do setor logístico deparam-se com desafios e incertezas significativas e, portanto, também oportunidades, num negócio que até março passado era pautado pela eficiência e onde agora a resiliência é dimensão igualmente crítica. No contexto atual de forte disrupção interna e externa, e de reforçada incerteza resultado da pandemia que vivemos, podemos realçar três principais forças que impactam o setor.

Protecionismo, guerras comerciais e regulação num contexto de pandemia
A Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê que os efeitos diretos da pandemia, na procura e na oferta, e medidas tomadas pelos vários países, irão reduzir o comércio internacional este ano entre 13 e 32 por cento. Conscientes que extrapolações do passado não ajudam a prever o futuro, quando o multiplicador de comércio contrai, e já contraiu em várias circunstâncias no passado, volta a reverter.

Deste modo, as totalmente interligadas e simbióticas atuais cadeias de abastecimento e domésticas poderão ser repensadas. Entre várias dinâmicas globais e regionais, sublinhamos:

  • Novas práticas com menos risco: procedimentos de dual sourcing para minimizar o risco de relações dependentes de um único parceiro em domínios críticos, processos mais diretos e menos extensos para evitar o risco de disrupção em cadeias longas, e maiores níveis de stock a curto/médio prazo via desafios em manter sistemas de produção just-in-time;
  • Esforço de (re)industrialização europeia: expectativas de políticas de (re)industrialização no quadro da União Europeia, internalizando parte de uma produção industrial deslocada para outras geografias;
  • Guerra comercial Estados Unidos – China: a imposição de tarifas tem um impacto negativo nas cadeias de abastecimento, perturbando os canais de distribuição e abastecimento. Eventualmente, os lucros das empresas americanas podem diminuir devido ao aumento dos custos, e os lucros das empresas chinesas também via redução das exportações para mercados finais (e.g., anúncios de retalhistas e empresas de base tenológica a realocarem produção para outros mercados Asiáticos);
  • Brexit: as tarifas comerciais com a União Europeia, a procura de um significativo número de agentes aduaneiros qualificados, e o evitar da escassez de inventários estão a constituir-se como ameaças à cadeia de abastecimento no Reino Unido, nomeadamente nos setores automóvel e aeronáutico.

Desaparecimento do e-commerce como uma tendência
Se a expansão do e-commerce era uma clara tendência antes de março de 2020, entretanto a sua universalização transformou-se numa certeza. A título ilustrativo, nos Estados Unidos a taxa de penetração do comércio eletrónico (como percentagem do total de vendas retalhistas) passou de 16 por cento no final de 2019 para 27 por cento em abril de 2020, mais próximo do que já era a realidade Chinesa em 2019 (cerca de 25 por cento).

Para acompanhar esta expansão, os fornecedores de logística estão a melhorar a eficiência da sua operação, bem como a implementar soluções tecnológicas emergentes, nomeadamente:

  • Assegurar uma entrega last mile eficiente: os consumidores exigem rapidez, rastreabilidade e flexibilidade de local e horário de entrega, mas estão pouco predispostos a pagar por essa conveniência (constituindo, em média, esta etapa mais de metade do custo total, melhorias de eficiência aqui continuaram a ser críticas);
  • Reverter a logística: a importância da gestão de devoluções e da logística inversa aumenta com o e-commerce (cerca de 30 por cento dos consumidores devolvem os produtos comprados nos canais de e-commerce, versus oito por cento nas lojas físicas), sendo um critério de seleção e uma oportunidade de reforçar a relação com o cliente final;
  • Entregar cross-border: localização reforçada, melhor logística e opções de pagamento digital tornaram as compras transfronteiriças mais fáceis e seguras (no entanto, agora sujeitas a possíveis restrições à movimentação entre fronteiras);
  • Desenvolver plataformas logísticas internas: plataformas próprias num novo binómio eficiência-resiliência é uma opção para operadores de dimensão;
  • Ativar tecnologias emergentes: tecnologias como blockchain ao longo da cadeia de abastecimento, realidade aumentada e virtual para gestão de armazém, drones para a entrega de last mile ou a utilização do conceito de digital twins, que permitirá construir modelos virtuais ultrarrealistas de cadeias de abastecimento.

A região Ásia-Pacífico lidera o mercado global de logística de e-commerce com 60 por cento da população global a residir na região. A Europa e a América do Norte oferecem oportunidades com infraestruturas digitais superiores e capacidades de inovação já estabelecidas.

Inovações de modelo de negócio
O advento de novas tecnologias, a evolução das expetativas dos clientes e o avanço dos padrões de digitalização da cadeia de abastecimento continuam a incentivar os operadores a explorar oportunidades para aumentar a eficiência das operações.

As empresas neste setor procuram transformar os modelos de negócio existentes via automatizações e otimizações de:

  • Operações de entrega first e last mile, que continuam a atrair o interesse de retalhistas e fornecedores de logística (e.g., veículos autónomos podem reduzir o custo da entrega de last mile até 40 por cento);
  • Gestão de armazém para enfrentar desafios externos e internos (escassez de mão de obra ou avanços na automação) em larga medida através de novas tecnologias (como reconhecimento ótico, realidade aumentada, óculos inteligentes ou robotização).

Deste modo, os operadores estão a ganhar mais controlo sobre a cadeia de abastecimento ao adotarem capacidades para rastrear ativos, bens e capacidade em tempo real através de sensores e tagging de ativos, blockchain, analítica, e sistemas avançados de gestão de frotas.

Com base nestas tendências, podemos identificar as seguintes principais dinâmicas num futuro próximo do setor da logística:

  • Tecnologia e inovação continuam a ser os pilares fundamentais para a transformação do setor da logística com novas formas de capturar sinergias, e também de satisfazer as crescentes expetativas do cliente e novos desafios de segurança e higienização;
  • Os enablers tecnológicos com impacto na logística estão também a causar disrupção em todo o ecossistema de mobilidade e adjacentes (e.g., plataformas de e-commerce, a robotização e a aplicação de inteligência artificial terão impacto nos futuros modos de logística);
  • A coordenação entre existentes e novos players permitirá capturar oportunidades e sinergias, facilitando uma comunicação frequente e eficaz com o cliente para uma melhor experiência.

Apesar da incerteza inerente à pandemia que vivemos, as peças do puzzle de logística são conhecidas e as soluções futuras de mercado passam por respostas aos enquadramentos regulatórios e à incorporação de tecnologia já existente que satisfaça os novos perfis de consumo que estão a emergir no contexto atual.

Pedro Carvalhas Coutinho | Principal da EY-Parthenon

Nota: Artigo originalmente publicado na revista "Portugalglobal".
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