Desde o meu primeiro artigo, aqui na Supply Chain Magazine, que tenho focado a análise nos essenciais da logística. Desde então, podemos mesmo dizer que o mundo mudou. Uma pandemia, que a todos apanhou de surpresa, veio mudar para sempre muitos dos conceitos que tínhamos por adquiridos. Ainda assim, estes “básicos” que já tive oportunidade de vos falar, como a motivação de equipas, layout de armazém, eficiência, ou gestão de inventário, estão tão ou mais atuais que nunca. É por isso que, neste artigo, proponho uma reflexão sobre parcerias com fornecedores.

Nunca como hoje, após o início da Covid, se falou tanto de supply chain e procurement. Como, no pós-pandemia, se poderá tornar a cadeia logística (que se verificou eficiente, mas frágil) mais robusta, flexível e sustentável, é uma das discussões do momento.

Digitalização e automação são duas ‘buzzwords’ que entraram em campo e, ao que tudo indica, passaremos de um paradigma de produção padronizada em massa para a customização massificada. Questões macro fundamentais, mas que deixaremos para uma outra oportunidade.

A pandemia que assolou o planeta vem reforçar a importância fulcral de um outro “básico”: a relação de parceria com fornecedores. A importância de unir forças, criar relações de confiança e de partilha. Na essência, passarmos, efetivamente, de relações com fornecedores, para relações de parceria, no mais pleno sentido da palavra.

Como sabemos, as crises são sempre uma oportunidade de mudança, mas é necessário criarmos uma orientação estratégica para conseguirmos um desenvolvimento sustentável e extrair daí os melhores ‘outcomes’.

Uma das estratégias assenta na construção de um bom relacionamento entre fornecedor e cliente, como um ponto-chave e uma mais-valia para a sobrevivência e (re)construção de um melhor futuro, no qual todos estamos empenhados.

As presentes e futuras relações a criar, em áreas como supply chain, procurement e muitas outras, devem estar assentes em verdadeiras parcerias, como referíamos umas linhas acima. Na vida pessoal, como nas empresas, há uma verdade transversal: os resultados serão mais rápidos, fortes e consolidados se tiverem por base um trabalho em equipa de forma consertada e focada num objetivo que tem de ser comum e gerar situações de win-win.

Este ganho das parcerias face à individualidade, ao contrário de ideias pré-concebidas, não surge apenas nas grandes empresas. A nossa experiência na redução de custos e otimização financeira diz-nos que a vantagem é proporcionalmente maior nas micro, pequenas e médias empresas. Estas, mais do que as grandes empresas, não possuem avultados recursos para realizar grandes investimentos, de forma a poderem oferecer mais serviços a um custo mais baixo ou mesmo comprar equipamentos para expandir a produção, ou criar uma cadeia de abastecimento o mais eficaz possível.

Um dos caminhos assenta na externalização de áreas não core a parceiros de negócio disponíveis para empreendimentos conjuntos a médio e longo termo. Não apenas a fornecedores, sublinhe-se! Esta, está entre as principais vantagens para a redução de custos. Para além de eliminar processos burocráticos, vai aliviar as funções mais operacionais, diminuir tempo nas tarefas, aumentar a produtividade, gerar mais empregos e, consequentemente, ganhos de rentabilidade e eficiência financeira.

Quando aplicado à logística e à supply chain, setor onde estão a maioria dos nossos leitores, este conceito vai alavancar um bom relacionamento com os fornecedores, garante a produção, o fluxo de pedidos, as compras e entregas, e toda a gestão com o cliente, até à entrega final.

Nesta dialética, adotar práticas de bom relacionamento com fornecedores que, na verdade, são parceiros de negócio, é primordial, bem como até partilhar ideias e dados do negócio é fundamental para o sucesso da organização. Ideia esta que, acreditamos, seja vista por muitos com a máxima relutância, mas que, na verdade, poderá ser o diferencial entre o sucesso e o insucesso de um produto, serviço ou mesmo organização.

Vivemos na era da colaboração e é fundamental termos isso bem presente na gestão de empresas. Há muito que o segredo deixou de ser a alma do negócio. A partilha de informação, essa sim, é a chave do sucesso.

Com base na nossa experiência na redução de custos e eficiência financeira, poderemos dizer que existem algumas dicas para envolver e gerir parceiros em tempos instáveis como os que vivemos (e não só):

1. Cultura de empresa partilhada de forma a gerar um nível superior de compromisso;
2. Preço e qualidade devem andar de mãos dadas;
3. Capacidade de entender os custos de ambos os lados;
4. Abertura e transparência, com trabalho em open book;
5. Construção conjunta de ideias que quebrem paradigmas, aumentem a eficácia e reduzam custos;
6. Comunicação fácil e partilha aberta de dificuldades;
7. Planeamento conjunto e a longo prazo (dentro do possível, dadas as incertezas Covid)
8. Criação conjunta de situações disruptivas e não apenas de modelos de gestão assentes “nos manuais”.

Através destas dicas, e neste momento de pandemia que ainda vivemos, é fundamental também passar a máxima confiança ao cliente final, seja o negócio B2B ou B2C, incrementando sempre a qualidade e o valor agregado do serviço ou produto.

E isso, bem sabemos, apenas é possível assente em relações de parceria e não na convencional e condenada cliente-fornecedor.

Sara Monte e Freitas, Partner | Expense Reduction Analysts

 

Share This

Partilhar este artigo