Em pouco mais de um mês, assistimos no Retalho às célebres compras maciças de derivados de papel, enlatados e outros, à imediata resposta das cadeias na normalização dos abastecimentos, e a seguir às diferentes transformações que o setor implementou para a proteção dos colaboradores e clientes e sobretudo assumirem uma função vital na comunidade. A evolução pós-crise na distribuição alimentar irá ocorrer em imensas áreas, mas o canal on-line terá certamente um papel muito mais importante na relação das empresas com os consumidores.

Esta é uma visão, dos vários tópicos que estão presentes na implementação de um projeto logístico para suporte ao Ecommerce, num universo de uma cadeia de lojas e à adaptação a este novo formato. Muitos outros pontos terão de ser equacionados, mas certamente estas áreas estarão presentes neste desenvolvimento.

Tomando como ponto de partida a gestão inbound da operação logística, um dos primeiros aspetos a serem abordados deverá ser a adaptação do Centro de Distribuição ao abastecimento deste novo canal. Neste modelo, passará pela remodelação do layout interno do Centro Logístico, tendo em vista a criação de uma área dedicada em exclusivo a esta operação. Os artigos do sortido para este canal, deverão estar expostos nas posições de picking à unidade de venda em recipientes apropriados e a zona deverá dispor também de níveis de stock destas referências nas respetivas unidades logísticas. Entre outros fluxos, é nesta zona específica que será feita a abertura das caixas logísticas e colocação das unidades de venda nos suportes das posições de picking.

A preparação das encomendas deverá ser feita diretamente para o formato logístico que será transportado e entregue ao cliente final, adotando-se um sistema de multipicking, como variante do formato de preparação Picking by Line (PBL), em que o operador numa mesma “onda de preparação”, prepara na mesma deslocação a cada posição de picking de um artigo, a quantidade de unidades de venda pedidas para um certo número de encomendas que estão a ser preparadas em simultâneo. Para efeitos de gestão eficiente da zona de expedição, carga e transporte, cada onda de preparação deve contemplar os clientes duma mesma zona geográfica ou mesma loja física.

O sistema WMS e os processos de Voice Picking e mesmo de Picking by Light, deverão ter as funcionalidades necessárias para a gestão informática de todos os fluxos físicos de mercadoria que serão verificados no interior desta área reservada assim como entradas e saídas desta zona com o resto do armazém.

O desenho da arquitetura logística para a distribuição na “última milha” irá exigir novos recursos, que numa fase mais integrada e de maior volume deste negócio, irão contemplar certamente a necessidade de centros logísticos dedicados, plataformas cross-docking ou centros para buffers avançados de stock, em que no futuro, alguns deles estarão mais próximos dos meios urbanos. Mas no contexto atual, que é claramente de “urgência” na implementação da solução logística para este canal, essa resposta terá de passar numa primeira fase pela adaptação das redes logísticas atuais. Neste contexto, os centros de distribuição serão adaptados como centros mistos, para abastecimento ao canal tradicional e ao ecommerce e as lojas físicas terão a funcionalidade de pequenos centros de distribuição, através de frotas dedicadas para entrega ao cliente final (das encomendas preparadas vindas do centro logístico) ou mesmo de locais de preparação dos pedidos mais urgentes e pontos de recolha.

Neste processo de adaptação, deverá ter-se em conta que face à tradicional entrega de mercadorias às lojas físicas em formatos volumosos e homogéneos com múltiplas entregas semanais de camiões completos para 1 só loja, para o canal on-line serão feitas entregas de muito menor dimensão, em pequenos formatos com unidades de venda, e na maior parte dos casos ao domicílio do cliente final.

Na implementação deste projeto, deverão ser pensados vários fatores que podem ser diferenciadores, e dos quais destaco os seguintes:

  • O tamanho do sortido: à medida que cresce em amplitude e profundidade, serão maiores as necessidades de espaço no centro logístico e irão surgir outras complexidades (por exemplo, a inclusão de secções de ambiente em temperatura controlada), mas o aumento da oferta trará um maior volume de negócio no canal e diluição dos custos de entrega.

  • Os prazos de entrega: a diferenciação nesta área será feita com base na eficiência das comunicações do cliente com a plataforma on-line e na gestão da proximidade do stock aos centros de maior procura.

  • A gestão dos “custos de atendimento” (fulfillment costs) – no léxico do ecommerce representam todos os custos inerentes à operação de preparação, transporte e entrega das encomendas ao cliente final.

Por outro lado, os desafios para a implementação e desenvolvimento deste novo canal, poderão ser também uma oportunidade para projetos de colaboração entre os diferentes atores da cadeia de abastecimento, que possam envolver partilha de meios, de informação e de acessos.

Muitos de nós, não vivemos as crises pandémicas mais recentes, como os da Gripe Asiática (1958) e da Gripe de Hong-Kong (1968), ambas causadas pelo vírus influenza mas de diferentes subtipos. Seguramente o mundo de cada uma dessas épocas saiu mais fortalecido e certamente terão sido imensos os saltos evolutivos da altura após o fim de cada uma das crises. O mesmo irá ocorrer agora, acrescido pela maturidade com que a nossa sociedade deu resposta a este desafio.

Manuel José Gomes | Consultoria Logística e Distribuição

 

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