A descoberta de um novo vírus na China está a alarmar o mundo com a possibilidade de se propagar, tendo já causado vítimas mortais. As pessoas temem pela sua saúde, não só a nível regional, mas mundial, o que está a desencadear uma situação de crise nas cadeias de abastecimento globais.

A cidade onde começou o vírus Corona, Wuhan, embora seja uma cidade 11 vezes menor que Portugal, supera o nosso país em termo de número de habitantes, o que torna a propagação do vírus facilitada, com a população tão condensada numa área tão reduzida.

No dia 7 de Janeiro foi confirmado este novo vírus, após o alerta à OMS no último dia de 2019. Alguns dias depois, a 11 de Janeiro, a primeira vítima mortal, e dois dias depois descobriu-se a primeira pessoa infectada fora da China.

Desde 23 de Janeiro, as autoridades chinesas em Wuhan – um importante hub industrial e logístico na província chinesa de Hubei – impuseram quarentena em toda a cidade e severas restrições à circulação de meios de transporte em resposta a este surto que já infectou mais de 6.000 pessoas em todo o mundo e foi responsável pela morte de pelo menos 130. Além de ter sido interrompido o transporte público, foram suspensos todos os voos dentro e fora da cidade e proibidos de entrar ou sair da cidade todos os veículos que não sejam de emergência. Até ao momento, um total de 13 cidades chinesas foi submetido a quarentena semelhante.

As graves interrupções nos movimentos de entrada e saída de carga aérea, bem como no transporte ferroviário de mercadorias, além do congestionamento portuário ao longo do rio Yangtze, perto de Wuhan, provavelmente persistirão à medida que a crise aumentar.

Neste momento, as operações logísticas que dependem do acesso às rodovias para transportar mercadorias para dentro e fora da região já estão a ressentir-se, enquanto que também são esperados atrasos graves nos movimentos de carga aérea. Além disso, os navios, incluindo os de transporte de gás, foram impedidos de desembarcar em Wuhan – que está estrategicamente localizado nas margens do rio Yangtze – enquanto as autoridades ordenavam que os terminais parassem as operações, numa tentativa de retardar o surto.

Toda esta crise instalou-se num importante período festivo chinês (24 a 30 de Janeiro), posteriormente prorrogado pelas autoridades, e que está a ter um impacto gigantesco nas operações, cadeia de abastecimento e produção industrial  em toda a China em indústrias como automotive, produtos farmacêuticos e dispositivos médicos, alta tecnologia, electrónica… Empresas e fábricas em várias grandes cidades e províncias – incluindo Pequim, Zhejiang, Jiangsu, Guangdong e Xangai – receberam ordens para interromper as suas operações até pelo menos ao dia 9 de Fevereiro, com excepção para equipamentos médicos, empresas farmacêuticas, supermercados, serviços públicos e empresas de logística, numa tentativa de conter o surto do vírus Corona. Em simultâneo, alguns gigantes multinacionais já estão a tomar medidas e a accionar os seus planos de contingência.

Bosch
No entanto, na prática, não é bem assim que se processa. O surto de coronavírus pode afectar fortemente a cadeia de abastecimento global de um dos maiores fornecedores da indústria automóvel. O alerta veio do CEO da Bosch, Volkmar Denner, que explicou que o aparecimento do vírus poderá afectar a empresa, que é um dos maiores fornecedores de tecnologia e componentes da indústria automóvel, e que depende fortemente da China.

Mais precisamente em Wuhan, a Bosch possui duas fábricas, onde ainda não foram identificados quaisquer relatos de infecções. As fábricas encerraram para o feriado do Ano Novo Chinês, mas que foi estendido até hoje, o que “não interromperá os negócios globais da Bosch”, comenta o CEO, mas que caso se agrave acabará por acontecer. “Há previsões para que o pico de infecção se arraste até Fevereiro ou Março”, disse Denner aos jornalistas.

Toyota e Ford
Dentro do ramo automóvel, também a Toyota e a Ford anunciaram que iriam prolongar a suspensão das suas três fábricas na China até dia 9 de Fevereiro, que à semelhança da Bosch tinham sido encerradas temporariamente devido ao Ano Novo Chinês.

Remy Cointreau SA
A produtora de bebidas espirituosas Remy Cointreau SA abandonou as suas previsões de vendas para este ano após uma queda nas vendas em Hong Kong, a fonte de 20% do seu negócio, e a situação agravou após o surto do Coronoa.

McDonald’s
A cadeia de fast-food McDonald’s tinha, no final de 2018, cerca de três mil lojas na China. Devido à ameaça do vírus, a cadeia sentiu-se forçada a fechar temporariamente várias localizações em cinco cidades de Hubei, incluindo a província de Wuhan. A empresa está empenhada em manter-se preventiva no resto do país e isso passa por medir a temperatura dos trabalhadores à chegada ao trabalho e distribuir desinfectantes para as mãos.

Pizza Hut e KFC
As marcas de fast-food Pizza Hut e KFC também decidiram suspender as suas actividades na província de Hubei, onde o risco é maior.

Walt Disney
A Walt Disney viu-se forçada a fechar a Disneyland em Xangai no dia 25 de Janeiro e está a reembolsar os visitantes que compraram bilhetes para o parque e reservaram quartos em hotéis. “Iremos continuar a monitorizar cuidadosamente a situação e estaremos em contacto próximo com as autoridades locais. Iremos anunciar a data de reabertura assim que esteja confirmada”, revela através de comunicado.

Starbucks
A norte-americana Starbucks tem cerca de 4.300 cafés na China, o maior mercado externo da marca, e anunciou o fecho temporário de cerca de 2.000 lojas, sem avançar com mais informações.

Grupo PSA
O Grupo PSA anunciou que irá evacuar e repatriar staff e respectivas famílias que estão deslocadas na região de Wuhan. Segundo explica a empresa em comunicado, irão ser retiradas 38 pessoas.

H&M
A retalhista têxtil fechou um total de 13 lojas na região, o quinto mercado mais importante da marca, onde conta com 524 lojas.

Levi’s
A Levi’s Strauss encerrou metade das suas lojas na China devido a este surto, antecipando desde já um impacto financeiro de curto prazo e irá ter impacto nos resultados do primeiro trimestre. Há poucos meses, a marca tinha aberto a sua maior loja precisamente em Wuhan, no centro da pandemia.

IKEA
A sueca IKEA anunciou o fecho do seu armazém em Wuhan, de acordo com um comunicado, e das suas 33 lojas na China, mantendo activos os serviços de atendimento telefónico, bem como a loja online.

Honda Motor
A fabricante de automóveis Honda Motor irá retirar de Wuhan cerca de 30 trabalhadores japoneses, membros e colaboradores em viagens de trabalho.

Google
Também a Google decidiu fechar temporariamente os seus escritórios na China para reduzir o contacto humano e evitar a propagação do vírus entre os seus funcionários, incluindo as filiais da China, Hong Kong e Taiwan, passando estes a trabalhar a partir de casa por 14 dias.

Entre estas, muitas outras empresas estão a demonstrar problemas na sua supply chain, entre elas ainda a PepsiCo e a Siemens. A Comissão Europeia está a trabalhar “24 horas sobre 24 horas” com as autoridades chinesas para ajudar na distribuição de equipamento de protecção para fazer face ao novo vírus, além das operações de repatriamento dos cidadãos dos Estados-membros.

A União Europeia já contribuiu para facilitar a entrega de 12 toneladas de equipamentos de protecção individual à China, enquanto primeira medida de urgência.

“Os primeiros repatriamentos por avião da França e da Alemanha, co-financiados pelo mecanismo de protecção civil da UE, abrangeram 447 cidadãos europeus [entre os quais 17 portugueses], que partiram de Wuhan no passado fim de semana”, refere a Comissão Europeia.

Hong Kong avançou hoje mesmo com o fecho das fronteiras com a China como medida de prevenção.

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