O Reino Unido esteve num processo de abandono da União Europeia durante cerca de dois anos. No decorrer deste longo processo, a única certeza existente era… a incerteza. Foram vários meses de preparação, tanto por parte dos países e das burocracias e legislações associadas à saída deste importante mercado, como das empresas e das suas cadeias de abastecimento. Falou-se num Brexit com acordo, num Brexit sem acordo, mas no final o Reino Unido abandonou realmente a União Europeia.

A questão que agora se levanta é: ‘o que esperar dos próximos meses?’… Em declarações ao Expresso, Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP, comenta que “temos mais 11 meses de dores de cabeça pela frente e não sabemos qual a dimensão dessa dor”.

A incerteza para este ano volta a ser a maior certeza posta em cima da ‘távola redonda’.

Apesar da longa preparação, as empresas ainda estão para perceber o que realmente significa esta desagregação e quais os reais impactos que irão sentir nas suas cadeias de abastecimento, pois as variáveis são imensas.

O Departamento Britânico de Receitas e Alfândegas registou automaticamente 95 mil empresas com sede no Reino Unido que importaram bens da UE durante 2018 no sentido de os ajudar a simplificar os seus procedimentos e transacções. Foram então concedidos seis meses para declarar as suas actividades e pagar impostos.

O Reino Unido encontra-se a implementar salvaguardas comerciais para diminuir os riscos associados ao Brexit, e segundo avança a Supply Chain Dive irá ser posta em marcha a Operação Brock, um plano destinado a manter o tráfego em movimento no caso de ocorrer congestionamentos no Porto de Dover.

Também de forma a auxiliar as empresas britânicas que comercializam com a UE, o Governo de Boris Johnson também publicou cartas consultivas onde descreve os requisitos para importadores e exportadores.

Em termos de informação e prevenção, o Reino Unido tem estado a cumprir com a sua parte, mas agora cabe às empresas diferenciarem-se e inovarem nos seus procedimentos em termos de compras.

As relações das empresas com os fornecedores e, no fundo, toda a cadeia de abastecimento tem de ser revista e tratada da melhor forma, pelo que cabe a cada empresa e respectivos departamentos traçar esse rumo. A digitalização poderá ser uma solução para melhorar os processos, nomeadamente em termos de Machine Learning, Inteligência Artificial, Big Data e Análise de Dados, mas há sempre outras questões associadas ao Brexit.

No ano passado o nosso país apresentou uma quebra de 6,7% nas exportações para o Reino Unido, no valor de 3,4 mil milhões de euros (até Novembro). Falamos do quarto maior cliente de Portugal. Apesar da incerteza, prevê-se que devido a esta quebra e às taxas associadas à saída do Reino Unido da UE, este mercado se mantenha em declínio.

Com a sua saída, a produção automóvel no Reino Unido caiu 14%, e as vendas de componentes para o país caíram 10%, mas o problema não se fica por aí. Fora da União Europeia, o Reino Unido tem a vantagem de poder negociar livremente com outros países, nomeadamente asiáticos, e criar alguma competitividade para Portugal.

José Couto, presidente da AFIA, explica que foi proposto um acordo especial à UE para agilizar o trabalho do sector. O Expresso também refere que a Caetano Bus, uma das 50 maiores exportadoras portuguesas para o Reino Unido, tem uma encomenda de 34 autocarros eléctricos para Londres, mas lançam-se novamente as questões de incerteza sobre o enquadramento legal do Brexit.

No caso dos vinhos, a The Fladgate Partnership tem 30% das suas vendas no Reino Unido. Durante 2019 aumentou os seus custos logísticos para arrendar mais espaço de armazéns no país de forma a antecipar stocks e evitar problemas de fim de ano, no pico da procura dos produtos. A empresa revela ao Expresso que apostou na sustentabilidade e que isso trouxe um aumento de 40% nas vendas para um cliente inglês, através de um contributo de 15 cêntimos por garrafa vendida à reflorestação do Douro.

No sector têxtil verificou-se uma suspensão das encomendas nos últimos meses, envolvendo superfícies comerciais a fechar com medo da quebra do consumo e clientes preocupados com questões alfandegárias (que apontavam para 12% em muitos artigos deste sector). A quebra, no entanto, tem-se verificado desde 2016, com o referendo do Brexit, ano desde o qual também o maior sector exportador, o da metalurgia, apresentou um declínio, apesar de ter tido um crescimento nos últimos dois anos.

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